Atualmente
Selíni: Definhava em seus pensamentos.
Sabia das incompatibilidades em ser algo além do que eram: melhores
amigos. O que sobrou daquele tempo estava resumido aos olhos de resignação que
ela via todas as manhãs no espelho. As coisas até pareciam mais calmas. No
entanto, as dores ainda eram constantes e pesadas. Havia escolhido uma relação
sólida para fugir de outra que julgava inadequada e, ainda
assim, vivia à sombra da dúvida sobre a certeza dessa escolha. A incoerência de
ter que escolher está em nunca saber se o que foi perdido seria maior do que se
supunha.
Ernesto: Sempre tinha sonhos invasivos.
Acordava e ainda podia sentir a aceleração do corpo por ter estado em um
frenesi desautorizado. Tentava não pensar quando não dormia, mas aquilo se
tornava grande demais para administrar. Ultimamente, essas situações aconteciam
com uma frequência estarrecedora e, ainda que fosse necessário esquecer,
prolongava as memórias até onde fosse possível. A sensação do desejo velado era
excitante. Contudo, a frustração da impotência estava demasiadamente pesada apesar da passagem do tempo.
A história
Ambos
se conheceram na infância. Estudaram juntos, moraram no mesmo bairro próximo ao
limite da cidade e frequentaram a casa de vizinhos e amigos em comum. Escolheram-se
para cuidar um do outro e prometeram que, quando fossem adultos, estariam
sempre juntos. Mas é claro que não contavam com as imprevisibilidades às quais qualquer
um está sujeito. Quando se é criança o futuro é algo meio distante, e a palavra
“quando” pode ter o poder de perpetuar essa distância.
Durante
a faculdade, ainda que estivessem extremamente próximos, o círculo de amigos
foi ampliado e, com ele, as possibilidades também.
Muito
querida, Selíni sempre ajudava os que estavam à sua volta. Mesmo sendo um tanto
descontrolada em suas escolhas, sabia que Ernesto estaria sempre ao seu lado.
Ele,
por sua vez, sempre centrado, manteve-se muito certo do que queria. Com poucos
relacionamentos em sua lista amorosa, nunca se afastou da amiga.
Ela: Ao terminar a faculdade, foi
convidada para fazer parte de um grande projeto na cidade. Os contratantes
estavam pensando em nomes para montar a equipe, e surgiu o nome de Ernesto. Ela
se animou e argumentou em favor do amigo. Ambos já haviam feito alguns
trabalhos durante a faculdade e os resultados sempre foram positivos. Fazia
questão que ele participasse, pois eles não se viam há algum tempo, e a volta dele
seria perfeita para que estivessem próximos novamente.
Ele: Estava em outro país quando
foi cogitada a ideia de ele integrar a equipe de um projeto que precisava
começar o quanto antes. A princípio, não ficou muito animado, mas
depois de saber que Selíni era parte da equipe, se prontificou a voltar sem
titubear. Apressou-se em resolver tudo de que precisava para regressar à cidade
natal e começar a trabalhar com a amiga. O projeto teria duração de seis meses
e ele não tinha raízes no lugar onde estava naquele momento. Estar próximo de
Selíni lhe devolveu perspectivas.
Ambos: O reencontro não poderia ter sido melhor. Conversaram bastante e mataram as saudades, relembrando coisas do passado e contando novidades. O trabalho começaria em breve e certamente seria uma grande oportunidade de reatar os laços. Os seis meses iniciais se transformaram em quatorze meses, pois os contratantes entenderam que valia a pena ampliar o tempo do projeto, apesar dos riscos. Esse tempo acabou sendo suficiente para mudar suas vidas. A proximidade dos dois aumentava, e coisas antigas voltavam a ocupar um espaço que nenhum dos dois esperava. No entanto, a história muda quando é escrita por mãos diferentes. Eram excelentes amigos e formaram a melhor equipe possível naquela época, contudo, os sentimentos de um em relação ao outro se tornavam mais complexos. Era difícil admitir o que acontecia nas entrelinhas.
Ele: Via-se novamente preso a
Selíni de algum modo. Conseguia enxergar nela uma idealização que julgava não
estar ao seu alcance e, mesmo com essa verdade escancarada, era o tipo de homem
que esperaria por ela, ainda que parecesse loucura. Acreditava que podia
controlar seus sentimentos sem se expor muito e sempre deixava as coisas meio por
dizer. Tinha certeza de que o sentimento que nutria por ela era infindável e
pensava, todos os dias, que valia a pena viver por aquilo que sentia, ainda que
em um mundo paralelo à realidade.
Ela: Trabalhar com o amigo despertou
nela coisas que haviam sido diluídas no tempo e não sabia bem como lidar com
esse novo momento. Tinha uma autoestima sólida, e cada vez que Ernesto se
aproximava, se defendia de forma agressiva para que ele não ameaçasse sua
autossuficiência. Simplesmente ergueu uma parede, mas não deixou claro de que
lado estava. Não se preocupava com o futuro, nem sabia bem o que fazer, caso
ele se chegasse mais perto. Tinha a ilusão de que Ernesto estaria sempre por
perto para livrá-la das encrencas que arranjava, e pensar assim era bom. Era
depender, mas de longe.
Ele: Já conhecia bem Selíni e,
por isso, aceitava que ela entrasse e saísse da sua vida quando bem entendesse.
Sabia que se sufocaria no mesmo espaço que lhe dava, mas não conseguia evitar
isso. O medo de perdê-la com a própria proximidade a mantinha fora do alcance
de suas mãos, mas nunca fora do seu campo de visão. Às vezes achava que a amava;
às vezes, que ela era apenas alguém que deveria estar sempre por perto. Mas
nunca abria mão de estar presente.
Ela: Ainda que confusamente, resolveu
deixar Ernesto passear por sua vida. Certamente havia um lugar que só os dois
conheciam um no outro, mas o medo cegava quando se aproximavam desse lugar.
Alguém sempre recuava e, na maioria das vezes, esse alguém era ela.
Ele: Ainda que fizesse parte da
vida de Selíni, se via empurrado para fora. Não que um dos dois tivesse errado.
Talvez, mas as circunstâncias daquele momento não lhes foram muito favoráveis.
Ele se deixou levar por sua passividade em relação a ela e começou a sair com
Eve, parceira no mesmo projeto.
Ela: Pouco antes do término do
projeto, conheceu alguém que, se fosse embora, não levaria consigo sua vida e
achou seguro deixar-se ficar. Resolveu se casar.
Ele: Viu-se como um fracassado em
relação à própria vida e tentou convencê-la a não se casar, com toda sorte de
argumentos sobre a incapacidade de ambos em enfrentar as coisas como elas eram.
Em seu desespero, chegou a tentar dissuadi-la da ideia de viver ao lado de
outro homem.
Ela: Se casou quatro meses
depois do fim do projeto.
Ele: Assumiu sua relação com Eve cinco meses depois do casamento de Selíni, e foi morar com ela.
Atualmente
Selíni: Seguiu a rotina de todas as
manhãs. Colocou os dois filhos no carro e, apesar da algazarra que vinha do
banco de trás, estava dispersa. Ultimamente, pensava no passado com mais
constância, mas naquele dia, tudo parecia mais intenso e ela teve dificuldade
em discernir entre o que era nostalgia e o que era saudade. Claro que, quando
via Ernesto, eventualmente, seu corpo entrava em um processo alheio à sua
vontade: o estômago dava sinais de que existia, o suor insistia em molhar suas
mãos e a voz perdia a fluência de sempre. No entanto, naquele momento alguma
coisa estava mais estranha do que de costume. O que tinha extrapolado o campo
físico a fazia se sentir emocionalmente débil. Até o trajeto de casa à escola
das crianças lhe parecia pouco familiar.
Ernesto: Teve uma manhã tumultuada e
cheia de pequenos problemas corriqueiros, mas algo estava diferente em sua cabeça.
Ao sentar-se à mesa com a esposa e as crianças, aquela não parecia ser sua
vida. De alguma forma, o sonho que tivera com Selíni durante a noite tinha o colocado em um lugar que ele já julgava esquecido. Ao mesmo tempo em que se
via mais agitado internamente que o habitual, sentia que estava atento de
maneira peculiar ao seu entorno. Apesar dos mais de dez anos que separavam suas
memórias daquele momento, parecia que ele ainda não havia se acostumado ao
presente.
Ambos: Ondas de memórias perdidas
reverberavam de um modo que os fazia relembrar o passado, repensar o presente e
perder a perspectiva do futuro. Selíni não havia esquecido o fantasma que
supunha ter deixado para trás. E Ernesto tinha os sonhos permeados pela
presença da mesma mulher que sempre invadia sua vida.
Os anos que passaram na escola foram aqueles em que mais estiveram unidos. Sempre brincavam, estudavam, saíam, e tudo o que um fazia implicava a presença do outro. As conversas giravam em torno de um futuro que jamais poderia ser imaginado sem que os dois estivessem presentes.
Uma lembrança: O sol queima, mas o vento é generoso. Ernesto olha para a amiga sentada ao seu lado, no degrau da velha casa.
- Sel, quando a gente crescer, vamos continuar
amigos, não é?
- Claro. Sempre.
- E se a gente não namorar ninguém?!
- Então a gente se casa.
- Vamos fazer um pacto?
- Vamos.
- Mas pacto escrito se perde...
- Então a gente escreve na árvore.
- Não tem como perder uma árvore.
- Só se arrancarem ela do lugar!
Selíni: Lembrou-se de quando ela e
Ernesto eram crianças e podiam falar sobre todas as coisas. Riam de tudo e por
tudo sofriam juntos. Sentiu saudades das promessas que nunca foram cumpridas, pois
cresceram na fantasia de que só a amizade seria suficiente para que nunca se
separassem. Passou a manhã tentando fugir do que lhe consumia a alma. Deixou as
crianças na escola e, voltando para casa, por um momento, perdeu-se no caminho.
Preocupou-se com a própria desatenção e tentava compreender como tudo chegara àquele
ponto. Sentiu-se menor do que as escolhas que fizera.
Ernesto: Saiu um pouco mais tarde do que o de costume. Fez um caminho até o trabalho um tanto diferente: dirigiu até os limites da cidade, para o bairro onde vivera anos antes, na presença da amiga. A casa dela estava lá. De longe, ele viu a árvore. Estava maior do que se lembrava. Parou o carro e tentou explicar para si mesmo o que fazia, convencendo-se de que se tratava apenas de uma boa lembrança. De repente, vieram à mente memórias do que tinha vivido naquele lugar com ela. Assustou-se com a intensidade com que tudo voltava. Deu partida e arrancou o carro, saindo dali como se estivesse sendo ameaçado.
A história
Dela: Quando Selíni nasceu, os pais
já estavam separados e ela quase não teve presença paterna. Acabou se apegando
muito ao menino que sempre estava por perto, já que eles moravam muito próximos.
Era um bairro tradicional e quase não havia crianças. Ernesto era a única
companhia dela, e assim cresceram: frequentando as mesmas escolas e os mesmos
lugares. Até o colegial, tudo lhes era restrito. O mundo era aquilo e
pronto. Já na faculdade, a visão se ampliou: vieram novas oportunidades e, com
elas, experiências que deslocavam aquele mundo restrito. O jeito descontraído
dela chamava atenção e ela se sentia atraída pelo diferente. No último ano da
faculdade, o melhor amigo foi obrigado a mudar-se para outro país, e as coisas
começaram a piorar. Além da ausência dele, sentia-se perdida e, com frequência,
lamentava o vazio que se instaurara. A comunicação entre eles diminuiu, mas
nunca cessou. Ela teve algumas paqueras e chegou a se encantar por alguns
rapazes, mas nada que fosse suficientemente forte para retirar sua paz. Assim
que se formou, foi convidada para fazer parte de um grande projeto na cidade
onde morava e não teve dúvidas de aceitar, quando soube que Ernesto poderia integrar
a equipe. Quase não acreditava na possibilidade de ele voltar. Ainda assim, ele
veio, e nada poderia ter sido melhor. Como eles já haviam trabalhado juntos nos
tempos da faculdade, ela sabia que formavam uma boa equipe. Assim que ele
voltou para a cidade, passou alguns dias na casa dela enquanto não se instalava
definitivamente. Aqueles dias foram estranhos. Se por um lado ela se sentia
extremamente segura com a presença do amigo, por outro, começava a temer a
proximidade que a tornava vulnerável. Aqueles dias, inevitavelmente, norteariam
o resto de suas vidas.
Dele:
Ernesto
tinha cinco anos quando seus pais se separaram. A mãe saiu de casa e o deixou
com o pai, e ele foi criado em um ambiente de carinho. Pouco tempo depois, o
pai se casou novamente. A madrasta mostrou-se uma presença positiva, e a mãe,
embora distante, não foi totalmente ausente. Desde cedo mostrou-se centrado,
responsável e ambicioso em relação ao futuro. Cresceu ao lado da única menina
do bairro e, quando entrou na universidade, percebeu as coisas mudarem
drasticamente. Teve pouquíssimos relacionamentos, porém duradouros. No último
ano da faculdade, a mãe adoeceu, e ele decidiu ir morar com ela em outro país,
continuando os estudos. Pouco antes de se formar, a mãe faleceu. Mesmo assim, ele
não cogitou retornar ao país natal. Com o curso prestes a terminar, sentia
necessidade de construir uma vida independente, e permanecer onde estava lhe
pareceu uma boa opção. O nascimento da irmã caçula reforçou sua decisão. Sabia
que, se voltasse para a casa do pai, ocuparia um lugar que já não lhe
pertencia. Já envolvido em pequenos projetos, recebeu um convite para um novo
trabalho em sua cidade natal, mas não se interessou. No entanto, tudo mudou
quando soube que Selíni estava envolvida no processo. Sem hesitar, aceitou.
Providenciou tudo para a mudança e retornou. Combinou de passar alguns dias na
casa da amiga até conseguir se instalar melhor. Os poucos dias que esteve com
ela foram de descobertas e de difíceis decisões. Dali em diante, tudo mudaria.
Uma lembrança: Ernesto chega à casa de Selíni. O abraço é longo que parece mais uma necessidade do que um gesto. Se afastam, mas ela ainda o segura pelos braços, precisa confirmar que ele está ali:
- Mal posso acreditar que você está de volta.
- Juro que eu só vim por sua causa.
Ela
sorri.
- Eu acredito. Me conta tudo sobre você. Como você
está?
- Novidade nenhuma desde a última vez que nos
falamos. Mas, você... você está diferente.
- Diferente como? Quer dizer feia?
Ele
ri, negando com a cabeça:
- Você feia? Por Deus, jamais! É o cabelo, o brilho
nos olhos... você parece iluminada.
- Empolgação de te ver.
- Aquele homem ainda anda te procurando?
- Vamos falar disso depois. Primeiro vamos comer. Estou
com fome... e você também deve estar.
A
noite se constrói em trocas: cuidados, risos contidos, confidências que só
existem entre eles. Já passa da meia-noite quando vão até o jardim. Diante da
árvore, lembram-se do pacto feito na infância. Os nomes ainda estão ali,
gravados com esforço e solenidade. Trabalharam nisso por dias, levando tudo
muito a sério. Riem ao recordar e permanecem alguns segundos em silêncio, como
se aquele gesto antigo ainda dissesse algo.
O
dia seguinte transcorre em movimento. Caminham pela cidade, encontram rostos
novos e antigos. Passeiam pelas praças, comem comida típica e, ao visitar o pai
de Ernesto, conhecem a irmã caçula que nasceu em sua ausência. No final da
tarde, voltam para casa cansados. À noite, decidem assistir a uma série.
Ernesto
vai até a cozinha preparar pipocas quando ouve batidas na porta. Pouco depois retorna
à sala e vê um homem sair apressado. Selíni está imóvel em prantos.
- Que houve, Sel?
- Nada... está tudo bem.
Ele
corre até a porta a tempo de ver o homem subir na moto e partir.
- Ninguém chora porque está tudo bem. Era o babaca?
O que ele fez?
Ela
respira fundo, a voz falha:
- Não sei mais o que pensar. Gosto dele, mas ele me
faz muito mal. Eu sei que nem tudo que a gente quer é bom para gente... mas ele
não me deixa em paz. Sempre que estou bem ele aparece e estraga tudo.
A
raiva atravessa Ernesto: do homem que se foi, de si mesmo por ter estado
ausente. Onde ele esteve esse tempo? Ver Selíni assim o desorienta. Sem saber o
que dizer, ele a puxa para um abraço.
- Sel, não chora... eu perco o chão quando você
chora. Quer que eu fale com esse cidadão? Me diz o que fazer.
- Fica comigo. Só isso.
Ele
a conduz até o sofá. O choro cessa, mas o corpo ainda treme. Ernesto passa a
mão por seu rosto, com cuidado.
- Eu falhei com você. Me perdoa.
- Não. Você não podia ter feito nada.
- Podia, sim.
O
silêncio se instala. Ele não se lembra exatamente do momento em que decide
beijá-la. Apenas acontece. Selíni se assusta, corresponde por um segundo,
depois se afasta.
- Desculpa, Ernesto.
- Você está me pedindo desculpas por eu ter beijado
você? Por Deus, Sel.…
Ele
se levanta, inquieto, passa a mão pelos cabelos.
- Acho melhor eu me deitar. Vou deixar a porta
aberta. Se precisar, me chama.
Ela
fica sentada por alguns instantes. Depois se levanta e vai até o quarto dele. Entra
sem bater. Entra intempestivamente. Ernesto está tirando a camisa. Ela para, sem
reação. Ele a olha com expectativa nos olhos. Aproxima-se devagar.
- Você precisa de alguma coisa?
- Falar com você.
- Estou bem aqui.
Ela
tenta dizer, mas não consegue. Desvia o olhar.
- Eu não quero incomodar... melhor nos falarmos
depois.
Vira-se
para sair. Ernesto segura seu braço.
- Depois quando?
Selíni
fecha os olhos, inspira fundo. Quando se vira, já não controla mais o gesto. Empurra-o
sobre a cama.
- Estamos brincando com fogo.
Ele
rebate:
- Não me importo de me queimar, e você?
Ela
não responde. Apenas o beija.
A noite
é quase pequena.
Atualmente
Selíni: A casa parecia grande demais e
ela não sabia o que fazer. Tentou retomar alguns projetos, mas não conseguia
dar continuidade aos trabalhos. Resolveu sair para caminhar e foi bem além do trajeto
habitual, perdida na culpa por tudo o que tinha vivido. Sempre acreditou que
não merecia ser feliz depois do que aconteceu, afinal poderia não ter se
casado. Por outro lado, se Ernesto não tivesse tido tantas ressalvas, ela jamais
teria cogitado essa possibilidade. Ao avaliar aquele momento agora, percebeu
que tudo não passara de uma sucessão de erros e circunstâncias, e que já não
cabia atribuir culpas a ninguém. Sentia a vida estagnada no tempo, e isso era
tudo que tinha. A única vez em que amara alguém não fora capaz de ouvir o
próprio coração. Na época, não sabia se havia tomado a decisão certa, mas,
provavelmente, se tivesse sido, não a incomodaria. Resolveu tomar um banho para
aliviar os pensamentos e, ao tirar o relógio do pulso, viu a tatuagem que fizera
para homenagear o amigo: um pequeno sol com a letra E. Ela compreendeu,
então, que Ernesto sempre fora a luz que a guiava, apesar de toda a escuridão
que carregava.
Ernesto: Seus pensamentos voavam e uma
sucessão de lembranças o atacava sem lhe dar chance de defesa, trazendo
confusão e angústia. Fez uma ligação, inventou uma desculpa qualquer para não
ir ao escritório e parou em um parque. Desceu do carro e começou a caminhar,
tentando dissipar aqueles pensamentos desordenados em vão. Precisava se
organizar, mas os ruídos internos gritavam mais alto. Teve dificuldade de se acalmar.
Sentou-se à beira de um pequeno lago, tirou o paletó, afrouxou a gravata e
dobrou as mangas da camisa até os cotovelos. No pulso, viu a pequena tatuagem:
uma lua com a letra S. Era uma lembrança da querida amiga Selíni, cujo nome remetia
a uma deusa grega representada pela lua. Fazia tempo que ele não se lembrava
daquele dia e, ao recordá-lo, tentou sorrir, mas eram tantos porquês que não
conseguiu. O tempo estava agradável. O sol da manhã de outono era ameno e, uma
lembrança puxava outra, fazendo as lágrimas escorrerem. Como havia chegado até
ali? Há mais de dez anos guardava esse assunto, a ponto de quase esquecer o
quanto era doloroso. Ainda que, eventualmente, tivesse contato com Selíni, essas
questões nunca haviam aflorado com tanta força. Não sabia o que fazer. Não
havia onde buscar ajuda. Agora ele estava sozinho.
A história
O
projeto caminhava, oficialmente, como o esperado e periodicamente eram feitas
reuniões para se estabelecer novas metas e prazos. Ernesto já não estava
hospedado na casa de Selíni e nunca mais falaram sobre aquela noite. No
entanto, estavam com dificuldades em identificar o tipo de relação que haviam
estabelecido desde aquela noite. Selíni ainda falava com o rapaz por quem ela
supostamente se interessava e aos poucos Ernesto se viu bebendo um pouco mais
do que gostaria. Ainda que o trabalho rendesse reconhecimento, no campo dos
sentimentos tudo permanecia à deriva.
Uma
lembrança: Certa
noite, Selíni sai do escritório e, por acaso, Ernesto a vê sentar na garupa de
uma moto. Em um gesto impensado, ele a segue até um bar e a observa sentar-se à
mesa acompanhada de outro homem. É tomado por uma onda de raiva, dor e
indignação que o mantém estático e, embora quisesse ter ido embora,
simplesmente não consegue sair dali. Precisa ter certeza de que o que vê é
real. Quando o casal sai, Ernesto os observa de longe e quase não acredita que
está a vigiando. Vê o rapaz parar a moto próximo à casa de Selíni e os dois
descem. Começam, então, uma discussão acalorada e o rapaz a empurra. Ernesto
perde o controle: desce do carro e vai para cima dele. Brigam e, depois de
muita discussão, o homem vai embora. Ernesto se senta no degrau da calçada,
desgrenhado, com o rosto machucado, tentando se controlar enquanto Selíni
chora. Mantém-se calado, ainda golpeado pelos próprios pensamentos, até que ela
o toca e pergunta:
- O que veio fazer aqui?
Ele
está furioso. Tenta parecer menos agressivo do que se sente. Olha para ela e
responde:
- Não posso mais vir à sua casa? Eu não recebi o
aviso de persona non grata.
- Claro que pode vir! Aqui você é sempre
bem-vindo... Só queria que você não tivesse visto isso.
- Me desculpe. Estou meio alterado e não quis ser
ofensivo. Minha questão é comigo mesmo, não com você. É melhor eu ir embora...
- Fique... deixa eu cuidar desses ferimentos...
- São só socos, Sel. Há feridas que doem muito mais
que isso, sabia?
Ele
se levanta e caminha até o carro enquanto ela o observa. Antes de acelerar, para
em frente a ela. Selíni ainda chora, mas ele não a olha e não diz nada. Ela
quase suplica:
- Ernesto, vamos conversar?
De
olhos fechados, ele consegue dizer pausadamente:
- Entre, por favor.
Selíni
baixa a cabeça. Sabe que ele não sairá dali enquanto ela não entrar, então entra.
Certificando-se de que ela já está em segurança, Ernesto segura o volante com
as duas mãos, acelera e abandona o lugar com urgência.
Atualmente:
Selíni: Saiu do banho e enviou um
e-mail ao chefe dizendo que não se sentia bem, e era verdade. Estava angustiada
e precisava voltar para a cama e chorar. O esposo chegaria dali a dois ou três
dias, e ela se sentia arrasada consigo mesma, pois ele era um homem muito bom. Tinha
suportado todos os caprichos dela e sempre fora paciente. Estavam casados havia
mais de dez anos e tinham dois filhos. Ele trabalhava fora e, todos os meses,
ausentava-se por alguns dias. Perguntou-se se o marido sabia sobre o sentimento
que guardava por Ernesto e a culpa pesou sobre seus ombros. Chorou copiosamente.
Como havia deixado as coisas chegarem àquele ponto? Em que ponto perdera o
controle sobre a própria vida? Agora era tarde para remendos. Ainda assim, a
resignação a matava lentamente, e sentir-se culpada parecia ser a única forma
de tornar a escuridão menos densa. Não havia nada a ser feito.
Ernesto: Passou a tarde envolto em
lembranças, tentando encontrar uma razão para sentir-se tão esgotado de tudo.
Sua esposa era maravilhosa. Ainda que tivesse trabalhos importantes no mundo da
moda, optara por cuidar dos filhos para que não ficassem relegados a terceiros.
Tinha uma família estável e não compreendia em que momento havia fracassado. Sentiu-se
impotente e sem saída. Era como se o tempo tivesse lhe roubado uma parte da vida
e agora ele já não conseguisse se encaixar nela. As horas tornavam-se
intermináveis e, mais uma vez, se perdia nas próprias lembranças, atravessado
por uma saudade estranha. Estava insuportável viver todos os dias aquela vida
cheia de gente ao redor, enquanto a alma permanecia habitada pelo vazio. Sua
solidão tocava em coisas há muito intocadas, e doía rever o filme da própria
vida tão sem protagonismo. A ansiedade crescia, e a angústia apertava-lhe o
peito, quase o sufocando. Cada instante naquela condição o afastava ainda mais
de si mesmo, e ele sofria por coisas que já não faziam sentido sofrer depois de
tanto tempo. Estaria apenas exausto? Pela primeira vez, cogitou buscar ajuda.
Talvez um whisky pudesse aliviar naquele momento.
A história
Ao
final do tempo previsto para o projeto, os empregadores decidiram arriscar um
investimento maior e estender o tempo de trabalho. Aquilo confirmava o sucesso dos
resultados. Ainda assim, Selíni e Ernesto não sabiam se a decisão era de fato
algo positivo para eles. Selíni não tinha coragem de admitir que estava
apaixonada por Ernesto e, em vez disso, passou a tratá-lo com indiferença e
frieza. Ele, por sua vez, ainda tentava fazer tudo por ela, sem receber reciprocidade
por seus cuidados. Nessa mesma época, Ernesto conheceu Eve, uma modelo que
prestava serviços ao projeto e que frequentemente estava por perto. Começaram a
sair juntos e acabaram se envolvendo. Eve era uma mulher charmosa, e muitos
comentavam que formavam um casal perfeito. Selíni se defendia de tudo e de
todos como podia e, para não se sentir acuada, passou a evitá-lo empurrando-o ainda
que indiretamente, para outras experiências.
A
comemoração da nova fase do investimento foi uma recepção regada a boa comida e
boa bebida. A festa havia sido um sucesso.
Uma lembrança: Na hora de ir embora da festa, Selíni pede a Ernesto que a leve para casa, já que Eve está a trabalho em outra cidade. Ele a leva, ainda que com algum receio. Deixa-a na porta, brinca:
- Está entregue, mocinha!
- Ernesto, você está mesmo envolvido com Eve?
- Eu gosto dela... ela me faz bem.
- Não foi isso que eu perguntei...
- Então o que você quer saber? Que eu cansei de
esperar por você? Que eu me sinto péssimo quando você me trata com indiferença?
Quer que eu diga que não te reconheço mais?
- Você está sendo injusto comigo. Eu estou tentando
não estragar tudo. Eu também não entendo por que me machuco, e acredite, acabo
me ferindo muito mais. Me perdoe. Estou muito confusa. Você entende que essa
situação toda pode acabar, ou já está acabando, com uma amizade que deveria ser
eterna?
- Nada é eterno, Sel. Cada dia que a gente fica
distante é um dia a menos e é só isso.
- Eu te olho, te vejo diferente e isso me dá medo!
- Não estou te pedindo nada... só vim te trazer.
Ele
fica cabisbaixo, pensativo. Selíni desce do carro com lágrimas nos olhos, e
Ernesto diz:
- Nós vamos ficar bem. Eu não quero nada, não estou
pedindo nada. Então não chore. Entra, por favor!
Ele
se comove ao vê-la chorar, mas já conformado com a maneira que ela o trata.
Selíni permanece parada à porta, incapaz de encontrar a chave. Está
visivelmente descontrolada. Ernesto observa a cena por alguns instantes, desce
do carro, pega o chaveiro de suas mãos e abre a porta.
Lágrimas
ainda escorrem pelo rosto dela. Ele tenta manter a calma, apesar do turbilhão que
lhe atravessa a cabeça. Vira-se para voltar ao carro quando Selíni o segura
pelo braço:
- Ernesto... eu te amo.
Ele
se assusta, sem saber o que fazer. A voz dela sai entrecortada, entre suspiros:
- Sou eu que estou te pedindo que não me deixe
sozinha...
- Entra, Sel.… não faz isso comigo, por Deus.
- Entra comigo. Não vai embora... eu não quero
ficar sozinha!
Ele
percebe a fragilidade dela e sente uma mistura de confusão e receio. Já
sofrera muito da última vez que a vira naquele estado. Ainda assim, os apelos
dela falam mais alto do que sua racionalidade, e ele acaba cedendo.
Selíni
segue direto para o quarto. Ernesto hesita por um instante. Tira o paletó
devagar, deixa-o sobre o sofá, apaga a luz da sala e vai atrás dela.
Atualmente
Selíni: Logo de manhã, a sogra ligou
avisando que ia buscar as crianças na escola e que dormiriam em sua casa. Isso
acontecia com certa frequência, mas daquela vez, Selíni quase agradeceu. Sabia
que não era justo arrastar os filhos para dentro de sua tristeza sem fim.
Passou a tarde encolhida na cama, remoendo restos do passado, se deixando
atravessar por lembranças dolorosas. Bebeu algo forte na tentativa de conter sua
agonia interna e conseguiu dormir por algumas horas.
À
noite, o telefone tocou: era Otto, o marido. Queria saber se ela precisava de
alguma coisa. Precisava. Mas ele não podia ajudá-la. Depois de desligar, sentiu
frio. A casa estava vazia e escura. Ainda assim, não se levantou para acender a
luz, pois sabia que não adiantaria em nada.
Ernesto: As horas o torturavam, e ele
relutava em voltar para casa. Precisava de um tempo para entender o que seria
dali em diante, e sabia que lado da esposa e dos filhos, não encontraria o
espaço necessário para isso. Tinha a sensação de ter ultrapassado um ponto de
retorno, a partir do qual ainda seria conseguiria reorganizar sem dor. Agora, só
lhe restava permitir que a resignação se acomodasse e deixar que o tempo seguisse,
indiferente.
Tinha
esquecido como era viver. Os dias passavam lentamente, pesados, e ele apenas os
atravessava, como quem espera o fim de algo que não sabe nomear. Por um
instante, sentiu-se grato por nada ser eterno. Ele não era.
A História
Sentiam-se
menos distantes depois da segunda noite em que passaram juntos. No entanto,
Ernesto precisava resolver seus assuntos pessoais, assim como Selíni deveria lidar
com as próprias pendências. Por um breve momento, pareceu novamente em ordem.
Então,
de forma abrupta, Eve, que estava em um evento fora da cidade, passou mal.
Imediatamente, a mídia sensacionalista divulgou a notícia de que ela estaria
grávida. Ernesto não conseguiu acreditar. Ligou para ela, e a informação foi
confirmada. Sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Selíni
soube da mesma forma que ele, e que todos os da empresa. Desejou morrer.
Todos
celebraram a notícia, exceto Ernesto e Selíni.
Uma lembrança: No refeitório da empresa, a televisão está ligada e a maioria do pessoal almoça. O assunto é o desfile de Milão, até que a notícia de que uma das modelos passa mal chama a atenção de alguns. Alguém que está próximo comenta:
- Ernesto, é sua namorada! Amigo, você vai ser
papai!
Todos
aplaudem. Ele, porém, não consegue acreditar no que ouve e liga para Eve, que
confirma a informação divulgada pela imprensa. Após alguns segundos tentando
digerir aquela notícia, procura Selíni com os olhos e a vê estática, olhando
para o nada. Tenta se levantar para ir até ela, mas as pessoas se aproximam para
felicitá-lo, e ele a perde de vista no meio do tumulto.
Depois
das manifestações de carinho dos colegas, ele procura-a por todos os lados e
entende que ela já deixou a empresa. Sem titubear, ele vai à casa dela:
- Sel, precisamos conversar...
- Não há nada a dizer, Ernesto.
- Não previ isso... precisamos conversar.
- É simples: você não é para mim e eu não sou para
você.
- Eu não vou me dar por vencido. Sei exatamente
como você se comporta na defesa, diante de um obstáculo. Sua especialidade é
fugir do conflito, mas isso não vai acontecer agora, Sel. Somos adultos.
- Fizemos mal e isso é tudo. Eu estou bem ciente do
que estou renunciando, e você está livre.
- Vim para que a gente ache uma solução, e não para
ser livre.
- Que solução? Vai bancar o irresponsável e
abandonar a namorada grávida por uma amiga de infância? Por Deus, Ernesto... esse
não seria você. Não seja ingênuo.
- Selíni, por favor...
- Não se lamente. Eu vou te levar no meu coração, e
isso precisa ser suficiente. Vá cuidar dela e de seu bebê. Não quero ter a vida
permeada pelo fantasma de uma criança. Assuma sua responsabilidade, que é o que
você soube fazer melhor. Estou facilitando as coisas e te dando minha bênção.
Vamos continuar amigos.
- Não faz isso com a gente, por favor!
- E vai me propor o quê, Ernesto? Que eu seja a
outra? Você não seria tão cafajeste. Você dorme com ela e depois comigo e agora
não consegue abrir mão de nenhuma das duas?
- Está colocando palavras na minha boca...
- Então, diga. Diz o que você está louco para
falar! Que fui eu que te arrastei para a cama, não é mesmo? Que precisei
implorar para você me amar, enquanto você se deitava com ela sem precisar de
apelo nenhum... fala. Eu preciso ouvir isso da sua boca!
- Você só pode estar descompensada. Eu nunca diria
isso. Não seja irracional. Esse é um problema nosso, agora. Eu não estive
com você porque você implorou. Isso não aconteceu. Eu estou com você porque eu
preciso estar.
- Confesso que seria mais fácil se eu te odiasse. Mas
te peço: não volte a me procurar. Se realmente me respeita como diz, e se algum
dia eu fui importante para você, não volte mais. Esse foi o ponto final.
Ernesto
fica desolado. A frieza de Selíni o deixa sem ação. Quando ela bate a porta, ele
permanece ali por alguns segundos tentando racionalizar toda a situação e vai
embora.
Ela
chora a noite inteira.
Ele
bebe a noite toda.
Atualmente
Selíni: Se perguntava por que tudo tinha
acontecido daquele jeito: como as coisas foram tão diferentes de tudo o que
planejou para si? Por que ainda sentia aquelas coisas depois de tantos anos?
Aquele era um ciclo da vida dela que não se fechara e, mais do que isso, a
impedia de começar qualquer outro. Estava vivendo em um passado do qual não
conseguia se livrar. Quis desaparecer, mas para onde? Não existia nenhum lugar
seguro para onde ela pudesse correr e se livrar de todo aquele peso. Não era
possível fugir de si mesma.
Ernesto: Antes que a noite chegasse,
passou em casa e disse que precisava fazer uma viagem rápida. Colocou algumas roupas
em uma bolsa e saiu. Passou a noite em um hotel, mas quase não dormiu. Viu-se
atormentado pela vida que lhe escapava, chorou por não viver a que levava e
chorou por Selíni. Vagou pela história de suas lembranças que nunca foram tão
vívidas e culpou seu excesso de silêncio. Eram tantos pedaços a juntar que
duvidou que algum dia conseguiria. Havia abandonado a esperança e agora, não
conseguia mais viver sem ela. Imaginou-se incapaz de recuperar-se de si mesmo.
A história
Profissionalmente
as coisas caminhavam rumo à excelência entre Selíni e Ernesto. Já no âmbito
pessoal, a comunicação acontecia apenas de maneira ocasional. Ernesto foi, de
certa forma, forçado a manter a relação com Eve, ainda que não tivesse assumido
um compromisso público com ela. Acompanhou a gravidez da namorada com apoio e
dedicação. Selíni conheceu Otto durante o projeto e quatro meses após o fim do
contrato ela se casou com ele. Ernesto fez de tudo para evitar que ela tomasse
essa decisão. Nas vésperas do casamento em uma reunião na empresa, chegou a
sugerir que ela desistisse dessa ideia.
O
projeto finalmente terminou e se tornou referência dentro da empresa. Ernesto e
Selíni passaram a simbolizar credibilidade e, por isso, foram convidados a
apresentar a proposta de um novo trabalho, ainda que nenhum dos dois estivesse
envolvido diretamente.
Uma
Lembrança: Lançamento
do novo evento. Selíni e Ernesto são chamados à frente para anunciar o
novo empreendimento. Ernesto começa:
- Selíni e eu temos o prazer de anunciar o início
de um novo projeto, já aprovado pelo conselho. Embora não estejamos envolvidos,
estaremos à disposição para apoiar no que for necessário.
Aplausos
se espalham pelo salão. Selíni acrescenta:
- E tenho uma notícia que vai deixar todos muito
felizes!
Impulsivamente,
Ernesto a olha e dispara:
- Vai cancelar o casamento?
Risos
surgem, leves, quase cúmplices. Mas ambos sabem que não se trata de uma
brincadeira. Selíni respira fundo e contorna a situação:
- Não, Ernesto. Não é isso. Já temos uma data para início
do projeto.
A
plateia vibra novamente, enquanto eles se encaram em silêncio.
A
festa começa. A música All in love is fair, de Stevie Wonder
começa a tocar. Ernesto a puxa para dançar. Diz em voz baixa:
- Sel, como você está? Eu preciso que você pense
bem... Está tomando decisões sérias sem tempo suficiente, rápido demais. Eu me
sinto como alguém condenado à morte, sem direito à defesa. Meu tempo está se esgotando,
e eu não tenho para onde ir. Vamos conversar. Eu preciso de você... a gente precisa
se dar uma chance. Eu estou desesperado. Não se case com Otto.
- Você está enganado, Ernesto! Eu estou absolutamente
certa da minha decisão. Poucas vezes estive tão segura de fazer o que precisa
ser feito. Nosso tempo acabou. E, como diz a música: todo amor é justo
- Eu não acredito.... Por que age assim? Eu conheço
você. Sei que não quer fazer isso. Não percebe que seu eu orgulho ferido está
acabando com a minha vida, e vai acabar com a sua também?
- Vá embora, Ernesto. Nossas vontades não passaram
de ilusão. Acabou.
Ela
se afasta, e ele permanece parado, observando-a desaparecer na distância. Aos
poucos, compreende que não pode obrigá-la a amá-lo. Resta-lhe apenas tentar
aprender a se amar depois de tudo, para que talvez, alguém ainda possa amá-lo.
Ele
a tinha perdido.
Ambos: Ela se casa dois dias depois. Ernesto assume a relação com a namorada poucos dias mais tarde, e passam a morar juntos antes do nascimento do bebê. Ainda se veem esporadicamente, mas nunca mais se olharam nos olhos, e nem precisam. Os pensamentos de ambos pertencem um ao outro, e isso é inegociável.
Atualmente
Selíni: A noite naquela cama tinha sido
longa. Acordou exausta pelo do excesso de choro e, embora se sentisse
debilitada, não conseguiu comer nada. Queria evitar que os filhos a vissem tão abatida
e ligou para a sogra. Queria saber se as crianças poderiam ficar lá por mais
tempo. Inventou um resfriado de última hora, o que funcionou.
Abriu
o notebook e encontrou antigos e-mails de Ernesto, mas não teve coragem de
lê-los novamente. Abaixou a cabeça sobre a mesa e se perguntou: “Deixar de
lutar pela minha vida é uma forma de me deixar morrer?” O pensamento a fez
chorar novamente. Despertou nela a necessidade de ter notícias dele. Era mais
que um desejo. Era uma ânsia.
Sentiu-se culpada, mas não se conteve. O
cansaço de tudo aquilo tinha crescido tanto que precisava sair dali. Respondeu
com um sim ao último e-mail dele, enviado há mais de dez anos, fechou o
computador e saiu de casa.
Ernesto: Só conseguiu descansar
quando a noite deu seus primeiros sinais de rendição ao dia. Nas poucas horas
que dormiu, foi novamente assombrado pela presença constante de Selíni, que
agora parecia maior, quase intimidante. Acordou no meio da manhã, acelerado. A
cabeça pesava, e ele relutou em se levantar.
Sentou-se
na cama e percebeu que sua vida tinha se tornado uma visita frequente ao
passado. Havia sentimentos demais guardados em seu armário de tranca frágil, e ele
estava exausto de escorar a porta para que não escapassem. A impotência, mais
uma vez, estava à sua frente. Parecia enorme e ameaçadora. Tentou não encará-la,
mas, ao se levantar, sentiu-se fraco.
Pegou
o celular: inúmeras mensagens, pendências, urgências. Tudo parecia exigir algo
dele. Tomou um banho demorado e, depois, sentou-se para tomar café. Leu as
mensagens, respondeu às que conseguiu e, ao passar pela caixa de e-mails, viu o
de Selíni.
O coração disparou. Entendeu, então, que ela
finalmente aceitara a proposta feita anos atrás. Ler aquele “sim” foi
mais do que suficiente para arrancá-lo do caos em que se encontrava. Com certa
pressa, levantou-se, pegou o casaco e saiu dali.
Ambos: Ernesto parou o carro e
sentiu-se prazerosamente inconsequente. Desceu e caminhou em direção à árvore.
Selíni estava lá. Sentada à sombra, os reflexos do sol que atravessavam as
folhas revelavam que ela ainda era aquela menina, apesar do tempo. O vento brincava
com seus cabelos, e ela olhava, pensativa, para o horizonte.
Ele
fechou os olhos e sentiu um aperto na alma ao considerar a possibilidade de não
se aproximar. Ignorou o impulso de recuar. Apenas caminhou até ela. Sentou-se ao
seu lado e passou a olhar o horizonte também. Quando ela se voltou para ele, percebeu
que chorava.
- O que vamos fazer, Ernesto?
- Parece mais difícil do que antes...
Ele
baixou os olhos. Sentiu lágrimas quentes descerem-lhe pelo rosto.
- Seria egoísta da minha parte dizer que vai ficar
tudo bem, porque é bem provável que isso não aconteça. Mas eu quero te abraçar,
mesmo quando tudo estiver ruim.
Ela
respondeu com uma quase súplica:
- Está tudo ruim agora...
Eles
se abraçaram. Era um abraço de alma. Nele couberam mais de uma década de
saudades guardadas e de vontades reprimidas. Ali eles souberam que a vida lhes
oferecia um novo primeiro dia para viver o resto de suas vidas.
Ele
disse:
- Sel, finalmente.… estamos em casa.
- E o que fazemos?
- Eu não sei... só sei que você é uma parte
importante de mim e eu não vou deixar você ir embora de novo.
- Eu nunca fui embora... e nem pretendo ir jamais!
Ernesto
sentiu nascer a coragem que lhe faltara para fazê-la ficar. Selíni tinha nos
olhos a segurança de quem sabia que precisava ficar. Não tinham muitas certezas, mas não havia
dúvidas sobre a forma que sairiam dali: juntos. Não carregariam mais seus
silêncios nem suas faltas. Tinham perdido o medo de sofrer para serem felizes.
Foram
para o hotel onde ele estava hospedado e conversaram durante um longo período.
Estavam cansados de se privar da presença um do outro. Ainda assim, sabiam que decisões
dolorosas precisariam ser tomadas. Adormeceram por algumas horas e acordaram
cientes de que algo precisava ser feito.
No
final da tarde, sabiam que fariam do amor impossível o mais possível que ele pudesse
se tornar. Saíram dali decididos a voltar o mais rápido possível.
Na
casa de Ernesto: Chegou
decidido. Mesmo ciente da gravidade da situação, não pôde deixar de sentir que aquela
era a escolha mais sensata a fazer. As crianças brincavam no jardim. A esposa
estava sentada no sofá folheando uma revista. Ele sentou-se do lado dela e, ao
segurar suas mãos, olhou-a com carinho. Seus olhos estavam marejados.
Ela
já sabia. Antes que ele dissesse qualquer coisa, falou:
- Eu sabia que essa hora chegaria, Ernesto. Não
precisa se lamentar, nem dizer nada.
- Seria mais fácil se você não fosse tão
maravilhosa. Mas eu não consigo mais.
- Para mim seria mais difícil se eu não tivesse notado
sua infelicidade espalhada pelos cantos da casa.
- Me perdoe... eu não planejei nada disso.
- Eu sei. Faz tempo que deixamos de ser um casal,
não é? Eu quero muito bem a você. Foi um companheiro excelente. Agora é minha
hora de retribuir. Junte suas coisas e vá em paz. Selíni já esperou tempo
demais... e você também.
Ele
olhou para as crianças através da porta de vidro. Eve o acalmou:
- Não se preocupe com elas. Você nunca deixará de
ser o pai delas, e elas sabem disso. Eu vou prepará-las. Vá agora, antes que tudo
se torne mais doloroso.
- Eu queria poder fazer alguma coisa... dizer algo...
me justificar...
- Nós dois sabemos que isso não é necessário. Eu
sempre soube que você a amava. Mesmo estando do seu lado, nunca ocupei o lugar
que ela sempre ocupou em você, ainda que ela estivesse distante. Se isso
aliviar sua culpa, saiba que eu estava morrendo ao ver você se apagar um pouco
mais a cada dia. Vou ficar melhor se você for. E, por favor, não sofra tentando
evitar um sofrimento: isso é inútil.
Ele
chorou e a abraçou. Um abraço de despedida e de gratidão. Ela retribuiu com firmeza.
Ele beijou as mãos dela e foi para o quarto. Juntou suas coisas sem sentir
nada, nem mesmo consciente de que não voltaria mais. Aquele lugar já pertencia
a um tempo que simplesmente havia passado.
Quando
retornou à sala, a casa estava vazia. Olhou em volta pela última vez, caminhou até
a porta e sem hesitação saiu.
Na
casa de Selíni: Ela não
conseguia sair de dentro do carro. Há quase uma hora permanecia sentada ali,
repassando a própria vida enquanto o cheiro de Ernesto ainda impregnava suas
roupas. Tentou sentir culpa outra vez, mas não conseguiu. Não sabia lidar com a
euforia de tê-lo reencontrado e com a certeza de que tudo o que sentira ao
longo dos anos fora recíproco. Aquela certeza a renovava.
Ao
mesmo tempo, pensava no marido que chegaria de viagem, nas crianças, na vida
que tinha construído até ali. Rever Ernesto foi descobrir que a alma pode
continuar amando apesar dos anos, da distância e das escolhas feitas.
Compreendeu, enfim, que não podia mais abrir mão dele.
Saiu
do carro e começou a recolher suas coisas. Gostava da casa onde morava, mas,
naquele instante, ela lhe pareceu pequena demais diante daquele quarto de hotel,
que paradoxalmente continha mais verdade do que tudo o que ela deixara para
trás.
O
telefone vibrou. Era uma mensagem de Ernesto. Ao saber que ele já a esperava,
não conseguiu conter o sorriso. Havia planejado aguardar a chegada do marido
para conversar, para explicar-lhe tudo. Mas a simples ideia de Ernesto à sua
espera dissolveu qualquer intenção de adiamento.
Juntou o que era essencial e partiu. Mais uma vez, foi ao encontro dele — não por impulso, mas por escolha.
Ambos no hotel
- Nada me deixa mais feliz do que estarmos juntos,
Sel. Mas não posso deixar de pensar que deve falar com Otto...
- Eu sei. Não resisti. Vim te ver, trazer algumas
coisas... e vou voltar.
Ele
fingiu espanto:
- Umas coisas? Achei que fosse sua mudança.
Ela
riu, pela primeira vez sem culpas:
- Então vamos ter que ocupar o quarto ao lado.
- Estava pensando... aquela casa ainda pertence a
sua família, não é mesmo?
- Sim. Está vazia há anos. Nunca consegui me
desfazer dela.
- E se a gente for morar lá? Uma boa reforma...
talvez dê para continuar a vida exatamente de onde paramos.
- Não acha meio distante de tudo?
- Acho. Mas também acho que vai valer cada minuto,
se no fim de todos os dias tivermos voltado para um lugar que seja só nosso.
- Muitas expectativas, Ernesto! Eu mudei muito e
não mais sou a Sel de antes.
- Você continua sendo minha Sel, tatuada no pulso e
na alma. E eu também não sou o Ernesto de ontem. Mas eu sei que Ernesto de hoje
precisa dessa Sel que está aqui. Tenho motivos suficientes para, caso
seja necessário, aprender a amá-la de novo todos os dias.
- Você continua incrível, sabia? Amanhã, bem cedo,
vamos voltar para nossa casa. Agora eu preciso falar com Otto.
- Eu morreria por você não precisar mais sair por
aquela porta.
- E eu morreria se não pudesse entrar por ela
novamente.
=//=
Ao chegar em casa, Selíni viu o carro do marido na
garagem e congelou. Pensou em Ernesto, respirou fundo e caminhou até a porta
com a adrenalina à flor da pele. Ao entrar na sala, encontrou Otto sentado no
sofá, como se a esperasse. Havia um ramo de flores jogado na mesa. A voz dele,
firme e fria, a surpreendeu:
- Achei que tivesse viajado sem me avisar, meu amor.
Senti falta de algumas coisas no seu armário.
Selíni
percebeu a ironia contida no tom. Tentou conduzir a conversa:
- Como foi a viagem?
- Como sempre. E aqui, como foi? Como está Ernesto?
Imagino que você estava com ele, não é mesmo?
- Estava.
Ele
abaixou a cabeça, levantou-se e depois de servir-se de uma boa dose de whisky, perguntou:
- E não vai me contar como foi o encontro?
- Eu entendo sua indignação, mas não fizemos nada
para desmoralizar você. Preferimos resolver nossas pendências de maneira
correta. Estou aqui para isso.
- Você perdeu a oportunidade de transar com seu
amante? Porque, seguramente, foi para isso que você o procurou, não é? Aqui em
casa não acontece nada faz tempo e eu conheço bem você. É uma pena que não
tenha me desmoralizado. Se fosse eu, teria aproveitado mais.
- Não aconteceu nada ainda, e não me ofenda! Nunca
escondi de você o que sentia por ele.
- Eu teria dado a vida por você, Selíni. Por que
fez isso?
- Por Deus, eu não fiz nada de errado, Otto. Eu só
decidi viver. Eu juro que não fiz nada do que você está pensando. Eu respeito
você.
Ele
riu sem humor.
- Respeito? Eu chego em casa depois de quase dez
dias, vejo armários vazios e minha esposinha que deveria estar me esperando,
entra em casa no meio da noite com cheiro de outro homem. Obrigado pelo
respeito, Selíni. Mas, você não sabe o que é isso. Pegue suas coisas e suma
daqui. Não quero mais te ver.
- E as crianças?
- Infelizmente, não têm culpa da mãe que você é.
Vão continuar sendo seus filhos, a não ser que o plano seja abandoná-las também.
- Não estou abandonando ninguém... você não percebe
que nós nos abandonamos há muito tempo?
- Poderíamos ter resolvido isso de maneira
diferente, não acha?
Ela
começou a chorar e disse:
- É verdade... poderíamos. Mas eu sempre faço tudo
errado, não é?
- Dessa vez, o erro maior foi meu. Eu jamais
deveria ter me casado com a sombra do Ernesto. Volte para onde você estava. Amanhã
meus advogados entram em contato.
- Vamos conversar mais calmamente...
- Saber que você estava com seu amante não é
conversa. É um aviso suficiente para mim. Antes de sair, coloque as chaves
sobre a mesa. Vou tomar um banho e descansar. Ah... não entre mais nessa
casa. Ela não é mais sua.
Contido, mas visivelmente abalado, Otto pegou as flores e jogou-as no lixo da cozinha antes de desaparecer no quarto com a garrafa de Whisky. Selíni chorava, mas não teve dúvidas: não voltaria mais ali. Colocou as chaves sobre a mesa, devagar, e antes de sair, viu a fotografia da família sobre um móvel. Limpou o rosto e saiu, deixando tudo para trás.
Juntos: De volta ao hotel, Selíni contou
tudo o que havia acontecido. Ernesto, à sua frente, sentado na cama, segurava
as mãos dela entre as dele. Quando ela terminou, apenas a puxou para um abraço.
Era tudo que podia ser feito naquele momento.
Ela
se afastou um pouco e o olhou demoradamente:
- Com você eu estou em casa, não é?
- Eu nunca deixei de ser sua casa, Sel.
Ele
a beijou e a trouxe para junto de si. Queria livrá-la da dor, protegê-la do que
ainda viria, e amá-la apesar de tudo, ou justamente por causa de tudo.
Ela
deixou. Deixou que ele arrancasse dela toda solidão acumulada, os anos
suspensos, o medo. Mesmo sob o peso das decisões recentes, se amaram com a
certeza de que, enfim, estavam juntos de verdade.
Ainda
dormiam quando o celular dela tocou. Selíni atendeu com a voz baixa. Era o
advogado:
- Senhora Selíni, o doutor Otto pediu que eu entrasse
em contato para marcarmos um horário. Como ele tem pressa, podemos marcar na
segunda-feira pela manhã? Acredito que a senhora já saiba do que se trata.
- Claro. Eu posso ver as crianças antes disso?
- Aconselho que aguardemos até segunda-feira para
tentarmos um acordo equilibrado e sem maiores desgastes. Seus filhos estão na
casa da avó paterna, bem assistidos. Sugiro que esperemos as coisas se
acalmarem. Estou à disposição para qualquer necessidade.
- Certo. Na segunda estarei aí. Obrigada.
Ernesto
havia acordado.
- Algum problema?
- O advogado. Só poderei ver meus filhos na
segunda.
- Hoje já é sábado. Mas se quiser, podemos tentar
antecipar isso.
-Não. Deixe Otto resolver do jeito dele. Eu já o
magoei demais. Além disso, as crianças ficam na casa da avó com frequência. Vou
usar esse tempo para pensar em como falar com eles.
- Sua decisão é muito racional e eu te apoio. O que
te ajudaria nesse momento?
- Vamos nos levantar e ir para nossa nova casa
velha. Precisamos ver o que dá para fazer por lá. Oficialmente, estou sem lugar
para morar... e não podemos viver em um hotel, concorda?
Ele
sorriu de leve.
- A senhora que manda.
Levantaram-se. Depois do café da manhã, seguiram para aquela que seria, enfim, a casa deles.
A nova casa velha: Havia muito para ser feito,
mas não estava tão ruim quanto parecia. Eles mesmos começaram a limpeza do
lugar.
Pouco
antes do almoço, Ernesto se assustou ao ouvir vozes conhecidas no jardim.
- Crianças? O que vocês estão fazendo por aqui?
- Mamãe nos trouxe. Você vai morar aqui, pai? Tia
Selíni é sua nova namorada?
Ernesto
olhou na direção do portão e viu Eve saindo do carro. Buscou, instintivamente, o
olhar apreensivo de Selíni, que parecia esperar algo ruim. Ele caminhou até Eve.
- Eve? Como me encontrou?
- Onde mais vocês estariam? Vim ajudar. Trouxe
comida... e um pessoal da limpeza pesada está chegando logo atrás.
Ele
ficou confuso, e ela percebeu.
- Ernesto, nós vivemos juntos mais de uma década.
Quero bem a você. E a Selíni também. Não somos mais um casal, mas isso não nos
torna inimigos. Além disso, nossos filhos merecem pais civilizados, não acha?
Ela
sorriu com leveza. Ernesto agradeceu, ainda surpreso.
Selíni
observava de longe, conversando com as crianças. Ernesto fez um gesto para que
ela se aproximasse. Eve foi até ela e a abraçou com espontaneidade. Antes que Selíni
perguntasse qualquer coisa, um furgão estacionou em frente à casa.
- Com licença, vou falar com eles.
Selíni
olhou para Ernesto, curiosa. Ele também tentava entender a situação.
- Ela quer nos ajudar.
- Que maravilha...
Ela
respondeu esforçando-se para acompanhar tudo aquilo. Eve voltou.
- Por onde começamos?
Selíni
sorriu e respondeu:
- Por onde quiserem... estávamos começando agora.
Eve
entrou na casa com a equipe, distribuindo instruções com tranquilidade. Selíni se
aproximou de Ernesto e, entre os dentes, murmurou:
- Medo. Ou você foi um péssimo marido e ela se
sentiu agradecida por ter se livrado de você... ou ela descobriu que é sua mãe.
Ernesto
riu alto e passou o braço pelos ombros dela.
- De onde você tirou isso? Prefiro pensar que eu
fui tão perfeito que ela acha justo que eu seja feliz.
Passaram
o dia organizando, descartando o que não servia mais e resgatando o que ainda
tinha valor. As crianças improvisaram um piquenique sob a árvore do jardim.
Todos se sentaram juntos para comer. O clima era estranho, mas suportável.
- Selíni, eu sempre soube de vocês. Vocês se
escolheram e pronto. A gravidez naquela época, foi um descuido. Nunca foi
segredo que vocês se gostavam... só resistiram pouco às pressões externas. Eu e
Ernesto tivemos um bom tempo juntos, mas eu encontrei meu caminho na
maternidade. Ele é grande demais pra caber numa vida sem alegrias. Já não
dormíamos juntos há algum tempo e funcionamos muito melhor como pais que como
um casal.
Fez
uma pausa e continuou:
- Se eu disser que não doeu, eu estaria mentindo. Mas
era mais uma questão de estar acomodada à situação, do que amor. E você, Ernesto...
há quanto tempo não ri assim?
Depois
de um breve silêncio ele disse:
- Nunca falamos sobre isso...
- Não era preciso. Fomos empurrados para uma vida
que parecia correta. Se Selíni não tivesse reaparecido, talvez morrêssemos
antes do tempo, por falta de vida de verdade.
Selíni
sorriu com carinho para Eve e agradeceu:
- Obrigada.
- Não agradeça. Eu só estava fazendo companhia até
chegar a hora certa para vocês. E eu me diverti. Devolvo para você... com dois
filhos lindos, que vão ser como seus, tenho certeza.
Riram
emocionados. Ernesto segurou as mãos de Eve:
- Obrigado.
- Agora vamos comer e terminar com aquela
bagunça.... Ou vocês não querem dormir aqui, hoje?
- Seria ótimo, não é Ernesto?
- Seria perfeito.
A árvore: No final da tarde, a casa já estava
limpa e eles estavam sozinhos. Mesmo sem luz, decidiram permanecer ali. Foram a
um mercado próximo comprar o necessário para passar a noite. Pediram pizza, beberam
vinho à luz de velas e tomaram banho frio, não sem reclamações.
A
lua quase cheia iluminava a casa por fora e parecia convidá-los para visitar a
grande árvore. As marcas de suas iniciais resistiram ao tempo. Ali, reafirmaram
o pacto: aquela história continuaria viva enquanto eles vivessem.
Ernesto
sugeriu:
- Sempre que houver algum problema entre nós, resolvemos
aqui. Combinado?
- Então podemos ficar aqui agora? Estamos com
problema de iluminação lá dentro...
- Claro que não. Além do mais, dormir à luz de
velas é romântico. Amanhã já teremos energia elétrica e precisamos aproveitar
enquanto não tem, não acha?
- Vamos aproveitar tudo que fizermos nessa casa.
Combinado?
- Eu não sabia dessa regra na hora do banho frio.
Nesse caso, teremos que voltar para o chuveiro. Regra é regra.
- Essa regra vale a partir de agora: vamos
aproveitar tudo que fizermos nessa casa, a partir de agora.
- Que pena... tem certeza de que não é retroativa?
- Absoluta! Aquela água está gelada demais.
- Que oportunidade perdida...
Estavam
contentes, leves, inteiros. Algo que não sentiam havia muito tempo. Ficaram ali
contando histórias, falando de si mesmos e rindo sem motivo.
A vida estava apenas começando.
O fechamento: Na manhã de domingo,
encerraram a conta no hotel. Ao retornarem para casa, a luz já estava
restabelecida. Não tinham pressa de nada, o essencial já estava ali. Ele
parecia outro homem; ela se sentia outra mulher. Nunca haviam estado tão bem,
apesar de tudo.
O
dia da reunião com o advogado chegou e, às oito da manhã, Selíni já estava no escritório.
Ela e o ex-marido firmavam um acordo de guarda compartilhada dos filhos. Ficou decidido
que ela deixaria o casamento apenas com o que já lhe pertencia antes da união.
Justo, certamente não era. Ainda assim, Selíni compreendeu os motivos de Otto e
não impôs condições para o divórcio. Sabia que poderia recomeçar ao lado de
Ernesto e tinha nele todo apoio de que precisava.
Os
papéis foram assinados. Ela nunca mais voltou à casa onde vivera por anos com
Otto. Não fossem as crianças, talvez nem se lembrasse daquela vida e nunca, nem
por um momento, considerou possibilidade contrária.
Diferentemente
de Otto, Eve não criou obstáculos à dissolução do casamento. Sabia que algumas coisas
só são boas porque duram o tempo exato. Forçar seria estragar o que havia sido
legítimo. Gostava de Ernesto, reconhecia o amor dele por Selíni e desejava vê-lo
feliz. Aprendeu a amar Selíni através dos filhos e, com o tempo, se apaixonou profundamente
por outro homem, com quem se casou.
Otto
já estava no terceiro casamento quando, dois anos depois, Selíni e Ernesto decidiram
oficializar a união.
Aos
fins de semana, a casa ficava cheia. Os filhos vinham, e sempre era uma celebração.
Selíni e Ernesto iam frequentemente até a árvore para resolver suas diferenças.
Nunca deixavam de ir, mesmo quando os conflitos eram pequenos. Nos anos que compartilharam,
viveram realmente juntos. Nunca permitiram que os problemas saíssem da sombra
daquela árvore.
Já
mais velhos, após algumas discussões, ele dizia a ela que nunca mais iria atrás
dela. Ela sempre respondia que não era necessário, pois estaria sempre ao lado
dele, apesar dele. E, todas as vezes, ele reafirmava que nunca faria algo para
que ela fosse embora. Se apaixonavam novamente.
Conheciam
o melhor e o pior um do outro e, ainda assim, sempre encontravam motivos
maiores para permanecerem juntos. Quando se estranhavam e voltavam a árvore,
lembravam-se dos anos sem esperança em que haviam vivido longe um do outro. Essa
lembrança bastava para compreender que todo desentendimento fazia parte do
processo de ser feliz.
Não
tiveram filhos juntos, mas os filhos de um sempre foram do outro. Não morreram
juntos, assim como não haviam nascido juntos. Contudo, a parte da vida que
compartilharam foi boa. E quem vive uma boa vida não teme quando ela chega ao
fim.
Selíni
partiu um pouco antes. Ernesto acreditou que morreria também, mas, no fundo sentiu
alívio por saber que ela não experimentaria a dor de perdê-lo. Pouco tempo
depois, ele partiu.
A
casa agora está vazia. E, na verdade, ninguém sabe se essa história é
verdadeira. Mas a árvore continua lá. Enquanto ela permanecer de pé, a história
será contada, e as pessoas que ouvirem poderão decidir se acreditam ou não.
Fato
ou não, as iniciais ainda estão gravadas no tronco.
Pois o amor existe para quem acredita nele.