Desabafo
Um leve balanço e acordo. Estou voltando para casa de um passeio com amigas. O silêncio é viciante. À parte quem dirige, todas estão dormindo. Me encanto pelos tons da natureza, do lado de fora da janela.
São cores espalhadas pela paisagem harmônica que percorre todo o caminho.
O tempo passa devagar, a alma se acomoda a tanta leveza.
As
formas das nuvens e a maneira com que a natureza se organiza são magníficas. Não
fosse a perna ao lado, pesada pelo sono, pressionando a minha, eu não tomaria
ciência da minha limitação. Quero apenas estar lá fora, estar no
mundo, estar em lugares que nunca estive.
Já
em casa, me sinto grata por aquilo que julgo me pertencer: o cheiro fresco do lírio
florescendo, o aconchego da calma do ninho, a ilusão de segurança e pertencimento. Gosto de
imaginar que minha casa espera por mim quando me ausento.
Procuro
não tumultuar o ambiente com minha intrusão, manter a quietude é parte do processo.
Depois
do banho, ligo a TV: não saber o que houve enquanto estive fora, me dá a
sensação de alienamento.
A princípio, propagandas: imperativos do que se deve ter e fazer... as formas comuns de controle do sistema invadem o espaço.
Aproveito para reorganizar minha mesa, já anteriormente organizada e, então, nomes soltos de mulheres sendo pronunciados chamam minha atenção, mas não mais do que o que vem depois: todas mortas durante a última semana.
Ouvir ‘O
Brasil não é um país seguro para ser mulher’, me assusta demasiadamente.
Olho
para a tela com certo terror e vejo rostos que agora existem apenas na memória dos familiares e nas lembranças
dos mais próximos.
Me
sinto atingida, ultrajada, impotente... quase invisível.
Eu,
que há pouco vislumbrava a paz oferecida pelas montanhas entrecortadas pela estrada, arrebatada
pelo horizonte onde o céu esbarrava com delicadeza no desenho das árvores, fui
jogada com força no chão frio e indiferente da civilização.
Mulheres estão sendo covardemente assassinadas por homens. Várias... todos os dias.
Não adianta procurar motivações. Nada e nenhuma faria sentido.
A
violência com que a vida de quem dá a vida é tirada choca e causa pavor.
Uma
foi arrastada embaixo de um carro pelas ruas da cidade, outra foi esfaqueada na frente dos
filhos dentro de casa, outra ainda foi perseguida, violentada e morta... a maioria sofreu ataque brutal, algumas apanharam até morrer.
Talvez
uma outra tenha se jogado do prédio com a filha de 6 anos já sabendo a sina que
as esperava.
De
que tipo de progresso falamos quando tudo isso acontece diante do mundo todo, que sem ação normaliza o
absurdo?
Desde quando força física (apenas física, reitero), autoriza o extermínio do mais frágil?
O que é possível fazer para que o mínimo de respeito brote do coração do dito mais forte (apenas dito, reitero)?
Não
sou feminista. Sou mulher.
Exijo direito de existir, de ser quem sou, de pertencer e de ocupar o meu papel. Quero respirar com segurança sem ser vista como objeto. Quero continuar escrevendo minha história sem que a impunidade me interrompa.
Me questiono se é possível ser parte estando fora do todo...
A vida das mulheres
está acontecendo em uma arena (acontecendo ou sendo ceifada?): sem chance de defesa e sem coragem para ser
defendida.
Até
quando? Haverá um limite?
Não
há resposta para uma luta que parece ser solitária, mesmo dependendo de tantas variáveis.
Certo é que nenhuma estatística pode carregar uma mulher com uma história
que terminou de forma violenta, sem tomar conhecimento do quão grave é essa situação.
Não sou espetáculo. Sou resistência. Quero viver, não ser notícia. Mas a morte de outras me mata também.
Talvez haja limitação da minha parte em compreender qual é o problema: nascer mulher ou parir homem?
O país parece anestesiado diante da normalização dessa barbárie. A quem recorrer?
A vida que tira vida precisa entender que isso não é
uma opção. É sintoma de adoecimento, e, como tal, deve ser tratado e curado.
É hora de romper. É hora de deixar viver.
Espero que alguém haja e aja (com e sem h), em favor do que é sensato: o direito de e existir.
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