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quarta-feira, 21 de abril de 2021

O sonho

 


Era manhã, e ela ainda estava dispersa entre sonhos da noite anterior. Desde que tinha deixado de sair de casa com muita frequência, tinha tempo para reviver os fragmentos de sonhos que conseguia resgatar da mente. Era uma espécie de ritual: deixava-se cair em um transe nostálgico, desejando que os sonhos coubessem em sua realidade, ainda trouxessem um passado que jamais existiu. Relembrava, morosamente, aquelas memórias inventadas, e era assim que suportava o quase insuportável: a presença da ausência.

O clima estava agradável. Demorou-se no lanche matinal: uma xícara de chá, boa música. Quase nunca se sentava à mesa. Era a única mesa da casa, sempre apinhada de livros, cadernos e objetos que lembravam um escritor importante, e desorganizado. Ainda assim, naquela manhã, abriu um pequeno espaço para o café, e para devanear.

De pijama, com a xícara entre as mãos, recostou-se na cadeira e, com certa estranheza, começou a vasculhar as gavetas das coisas já vividas.

Era, certamente, um passado de sandices, inexistente. O aprisionamento na lamúria do próprio universo era, para ela, mais libertador que qualquer liberdade.

Sentia-se sonolenta. Pegou o livro "Amor de Vidro", que ela adorava pelas poesias delicadas, e sempre lia com carinho. Mas, antes mesmo de abrir o livro, de onde estava sentada, viu perfeitamente quando aquele homem invadiu a sua casa. Levantou-se atônita, tentando confirmar a realidade do que via.

Ele chegou à procura de algo que encontrou ao vê-la, e caminhou em sua direção. Estava ofegante, quase perdido em um descontrole contido. No trajeto, retirou o paletó como quem precisa se livrar de um peso e o deixou cair. Quase em câmera lenta, ela acompanhou cada gesto daquele homem: acompanhou o paletó, desde o momento em que deixou o corpo dele, até ele pousar inerte ao chão.

Quando se deu conta, o homem já estava ajoelhado à sua frente, como se estivesse rendido. Ela não compreendia quase nada. O homem estava abatido, e ela pôde sentir a dor que ele carregava nos ombros. A despeito da sofreguidão, imensa, havia uma polidez irrepreensível nos gestos. Ela, porém, continuava sob efeito da inconfundível perda de sentidos, incapaz de racionalizar qualquer situação. Vivia o caos.

Numa lucidez momentânea, não pôde deixar de sentir que seus desejos, até então incapazes de serem revelados, se agitavam e cresciam exponencialmente dentro dela. Não era possível... ele estava ali. Tinha os cabelos despenteados, barba por fazer, suor brilhando na pele, olhos desesperados. Afrouxou o nó da gravata e rogou por ajuda.

Rapidamente, ela se ajoelhou, sem saber como socorrê-lo. Sentiu, porém, que todas as sensações que outrora suprimidas, mas almejadas, se desnudaram ferozmente diante dela. Estagnada. privada de razão, ouviu sua própria voz perguntar:

            - “O que posso fazer por você?”

Ela já não sabia discernir o real do imaginário, mas reconhecia que quem havia falado era sua versão racional, que inutilmente tentava controlar seu querer inconsequente.

De súbito, ele inclinou a cabeça, tocou o braço dela e começou a falar. As palavras saíram como uma represa que se rompe: uma vazão crescente de sentimentos e desalentos, cada vez mais fluía e como rio sem curso certo, fazia estragos pelo caminho. O cenário descrito por aquele homem era devastador. Ouvi-lo falar de outra mulher soava como horror em forma de êxtase. Tornou-se humanamente pesado estar ali.

Ele falava de um amor infinito e de como esse amor afetava sua vida. Estava fragilizado, perdido, quase agonizando. Ela se viu arrastada para o abismo em que ele caía.

Ele precisava falar de seus infortúnios. Precisava falar do quanto o futuro havia falhado, e sobre como se sentia subjugado pelo amor não correspondido. Contou segredos e falou sobre o desejo desatinado que sentia por outra mulher. Ela viu a angústia ganhar espaço dentro de si. Tudo ruiu. Ela já sabia que nunca seria querida por ele, contudo, isso não a incomodava. Agora, ele sofria e ela era incapaz de fazer aliviar sua dor. Restava a ela vê-lo morrer vagarosamente, e com isso ela morria também.

O toque dele começou a tomar proporções descabidas, que deram a ela a certeza da plenitude. Viu quando ele fez silêncio e as lágrimas rolaram pelo seu perfeito rosto. Viu quando ele suplicou, pelos olhos, por uma saída. E naquele instante, ela conheceu tudo o que um ser humano é capaz de conhecer. Foi a eternidade em uma fração de segundos. Viveu a vida em sua completude.

Ele chorava. Abraçou-a em seu desespero. Ela sentiu o perfume, o calor, o abraço forte que a tomava. Ele era humano. O que ela pensava, até então, ser fruto de sua imaginação se revelava um homem comum, com imperfeições e fragilidades. Ele existia. Ela o viu ali limitado e pensou que estava tudo bem. Ela o aceitaria na vulnerabilidade, na igualdade diante da humanidade.

As expectativas irreais não se abalaram com a realidade: ali, receber importava menos do que dar. Em um só instante, ele destruiu e reconstruiu todo ideal que ela alimentava. Ela o amava e estava disposta a servir à dor dele, a suportá-lo na queda, não porque queria, mas porque precisava.

Quando conseguiu organizar a tempestade de sentimentos, ela retribuiu o abraço e sentiu a certeza de seu amor. Depois, afastou-se levemente. Ele se surpreendeu com o gesto e a olhou nos olhos, espantado, como quem pergunta em silêncio por que ela interrompia o único suporte que ele tinha.

Ela sorriu. Não respondeu.

Ele a olhou no mais íntimo de sua alma e propositalmente encurtou a distância que havia entre eles. Nesse espaço de tempo passou um filme de possibilidades na cabeça de ambos. Devagar, sentiu que a mão dele caminhava até seu rosto. Ele parecia investigar algo nela, e de súbito, a beijou.

Foi simplesmente mágico.

A intensidade das sensações a despertou.

Era um sonho.

O coração acelerado, o corpo vivo, a mente invadida por sentimentos que desafiavam qualquer irracionalidade. Um contentamento insolúvel a tomou com propriedade e a deixou à mercê de si mesma. E essa negligência vigiada pôde ser supostamente chamada de felicidade.

Ela ainda estava sentada à mesa...

 

 "Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir a sua vida,

e você vai chamá-lo de destino"

Carl Jung



Livro: Amor de Vidro - Carolina Cunha 

     

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Insight

Acordou ainda presa aos restos de um sonho e demorou alguns minutos para aceitar o dia. O clima ameno a convidava a permanecer na cama. Ela cedeu. Estava cansada demais para pedir prontidão.

Ao virar-se na cama, estranhou o homem ao seu lado. Não porque fosse um desconhecido, mas porque depois de tanto tempo e abandono silencioso, já não sabia mais quem ele era, ou em quem ela mesma havia se tornado. Perguntou-se se não o amava mais,e só então entendeu que apenas apenas tinha aprendido a ficar e que talvez isso não fosse mais suficiente.

Fechou os olhos, tentando escapar daquela constatação.

A relação tinha sido esvaziada pelos dois. O que restava era uma disputa muda, onde ferir parecia a única forma de existir. As culpas, espalhadas no espaço entre eles, feriam e as palavras que poderiam salvar eram ditas em tom baixo demais para serem ouvidas. Preferiu calar-se naquela guerra sem vencer-dores.

Com o tempo, as responsabilidades não assumidas passaram a sustentar um muro que era maior a cada dia, que se tornou intransponível.

Quando já não conseguiam mais se enxergar, simplesmente foram embora. Não houve conversas, explicações nem despedida. Houve silêncio. E como a voz se dissipou, o vento tratou de apagá-la.

Como aquilo havia acontecido? As histórias prometem um amor absoluto, as músicas falam de eternidade, os livros tentam explicar o que nunca se deixa apreender por completo. Meras fantasias de quem acha que o amor não precisa ser construído, nem precisa de manutenção diária e teimosa.

Não acreditava que o casamento fosse ruim. Apenas não estava preparada para ser porto seguro quando o chão em que pisava já era frágil demais. Estranhava as relações que transformavam o amor em jogo de poder, onde um vence e o outro perde. Para ela, o casamento deveria ser trabalho conjunto. Responsabilidade dividida. Talvez estivesse pronta para construir, mas não aceitava competir por algo que deveria ser seu.

Levantou-se e entrou no banho, tentando se livrar do incômodo que sentia consigo mesma. O que havia acontecido na noite anterior tinha mais a ver com gratidão do que com desejo. Onde ficara o respeito por si mesma?

Saiu sem café, sem planos, sem lugar. Acabou em um hotel. 

Dias depois, voltou apenas para recolher o que restava de si naquele apartamento. Nunca mais retornou.

Seguiu vivendo, agora com menos peso. Decidiu não carregar culpas que não lhe pertenciam. Caiu fundo, mas aprendeu a construir suas próprias escadas. Precisou abandonar as muletas que os amores idealizados ofereciam, mas pouco a pouco, voltou a caminhar sozinha. Tornou-se ela mesma.

Venceu? Ainda luta. Agora segue munida de autoestima e amor-próprio. Sabe que não deve a ninguém mais do que a si mesma e que a felicidade não se planta para o futuro: ela acontece no presente.

 

“Perder-se também é caminho.”

Clarice Lispector

 


O cíclico do dia

Desabafo Um leve balanço e acordo. Estou voltando para casa de um passeio com amigas. O silêncio é viciante. À parte quem dirige, todas estã...