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quarta-feira, 19 de maio de 2021

Exatamente nós

Capa: Letícia Novaes

Antes de tudo começar

EuÀs vezes, não percebemos as coisas incríveis que podem surgir ao longo da vida... mas, enquanto se está vivo e disposto, tudo pode acontecer.

 

Capítulo um

Ela: Seus olhos se abriram vagarosamente, afetados pelo excesso de luz. Estavam embaçados, e demorou a entender que estava em um quarto de hospital, mais uma vez. Sentia-se entorpecida, como se retornasse lentamente ao próprio pesadelo. Mesmo com as ideias confusas e desorganizadas, perguntou-se o que havia dado de tão errado. Mas já não importava: ela havia.

Aos poucos, foi se familiarizando com aquele ambiente hostil. Os sons inquietantes, a ausência de cor e o cheiro de desinfetante misturavam-se à própria sina. De súbito, e com dores por todo corpo, percebeu que não conseguia respirar com fluidez. Antes que pudesse expressar seu incômodo, alguém se aproximou e, com calma, explicou o que havia acontecido. Seu fracasso, dessa vez, vinha acompanhado de um gosto amargo de frustração.

Ainda atordoada, entre fios, agulhas e barulhos lineares, sentiu mãos pequenas e familiares tocarem-lhe o braço. Imediatamente, foi tomada por um misto de vergonha e culpa, lhe secou a boca. Se tentasse falar, sua língua esfarelaria.

Com um único olhar duro e magoado a filha suplicou: 

    - “Não faz mais isso. Não quero ter uma mãe suicidada”.

Ouvir aquilo a perturbou profundamente. Viu toda a sua vida resumida naquele único pedido. Que tipo de mãe abandona sua filha de seis anos daquela maneira? Talvez tivesse sido melhor desaparecer no mundo do que tentar morrer, mas sabia que sumir não a livraria da constante presença do desejo de morte que a rondava há alguns anos.

Aceitou que havia falhado, mas prometeu a si mesma que aquela seria a última vez. A partir daquele momento, sua nova empreitada, seria permanecer viva por amor a outra vida.

Já conhecia bem o ritual do hospital: em breve apareceria uma assistente social, sempre simpática, com perguntas “protocolares”, sem o menor interesse em saber quem ela era de verdade. Ainda assim, se sentiria no direito de “acusa-la” de ter sorte. Para sua surpresa, a última delas, depois da anamnese, informou-lhe que, dos noventa comprimidos ingeridos, mais de sessenta não haviam se dissolvido. Por isso, ela ali há quatro dias, e deveria agradecer por isso.

Quatro dias.

Ela nem se deu conta. Poderiam ter sido quatro anos, ou ela poderia ter simplesmente morrido, e não faria diferença.

Nos dias de internação, alguém até perguntou sobre as cicatrizes que ela trazia espalhadas em seu corpo, mas sem se importar de verdade. Era apenas mais um procedimento institucional, seguido à risca: formulários precisavam ser preenchidos; estatísticas eram imprescindíveis.

Ela se questionava sobre a relevância tudo aquilo. Afinal, como esperar empatia de quem já havia se acostumado a não se importar consigo mesmo? Talvez, naquele contexto, fizesse mesmo mais sentido priorizar o relatório.            

A sabatina prosseguiu, sem nenhum contato visual. E isso era perfeitamente compreensível, diante do incessante vai e vem de pessoas pelo corredor. Muitos formulários precisavam ser preenchidos.

Preferia acreditar que algum dia eles poderiam ajudar alguém.

Mais dois dias se passaram e, entre uma e outra avaliação médica, ela teve alta. Era hora de voltar à anedonia anterior à sua frustrada tentativa de fuga da vida.

No trajeto, observava pela janela do carro a mudança das paisagens, dos ares, das nuances e dos lugares. Odiou Heráclito. Como ele podia afirmar, com veemência, que tudo era impermanente?

A mudança, tão defendida por ele, nunca havia sido real. Para ela, e verdadeira permanência era da ausência, uma ausência que nunca se transformava, que se repetia.

Imaginou que a estagnação da alma no tempo poderia ser uma nova hipótese filosófica.

Quanto mais se aproximava de casa, menos pensava. E quando chegou, simplesmente parou de pensar.

Nada havia de novo na rotina, exceto o horário da quase dezena de medicamentos incorporados a ela. De resto, era tudo igual: sem cor, sem cheiro, sem alegria, sem gosto, sem luz, sem razão de ser. Tudo não passava de uma interminável sucessão de ‘sems’, até mesmo porque permanecia dopada na maior parte do tempo.

Toda manhã, havia um novo ritual: antes de ir para escola, a filha lhe levava um copo com água acompanhado de um beijo carinhoso. Era nesse instante que ela despertava do sono artificial, a trégua diária da culpa por sua própria inércia.

Carregava o peso do mundo sobre os ombros, e dormir era a maneira de manter seu ciclo de existência, sem precisar fazer parte dela de verdade. Na mitologia grega Tânatos (a morte) e Hypnos (o sono), eram irmãos gêmeos, e para ela, dormir era uma espécie de morte temporária.

A mitologia lhe caía muito bem.

Não havia demarcação de tempo. O quarto sempre tinha as cortinas fechadas, viviam em escuridão. Tudo se resumia a uma espera sem fim pelo último momento. O único desejo era continuar de olhos fechados. Na verdade, já não se tratava de desejo: era a ordem natural do que deveria acontecer.

Ela dormia; alguém trazia água e comida. Mantinha-se suspensa entre sua existência e falta dela. O peso de tanta coisa a tornava incapaz de se reconhecer como pessoa, e já não se lembrava mais nem da própria aparência.

Certo dia, resolveu que deveria sair um pouco do quarto.

Depois de cruzar a porta, demorou um pouco a se acostumar à claridade do corredor. A luz parecia agressiva, quase uma invasão. Caminhou devagar até encontrar a filha sentada no sofá da sala.

A menina sorriu e lhe estendeu a mão. A mulher retribuiu o sorriso e sentou-se ao lado da criança, como quem se aventura num território esquecido.

Perguntou à pequena o que ela fazia, embora soubesse assistiam a algum programa. Na verdade, a menina esperava com ansiedade por uma série adolescente e, empolgada, convidou a mãe para fazer-lhe companhia.

O corpo da mulher doía, a cabeça pesava, e ainda se sentia um pouco anestesiada daquela realidade. Mas a filha era o motivo de ela estar ali, e isso bastava. Cabia o esforço de ficar ao seu lado, ainda que não conseguisse acompanhar toda a empolgação da criança. Era o certo a fazer.

Por um breve instante, sentiu-se bem com aquilo.

Aqueles encontros na sala passaram a fazer parte de sua rotina. Tornaram-se sua forma de comunicação com o mundo exterior, um mundo já esquecido por ela em algum lugar distante.

O novo interesse era uma série cômica que divertia a filha, e às vezes, a fazia sorrir também. Percebia, então, que algumas situações só faziam sentido porque o sentido era dado pelas pessoas que as viviam.

Aos poucos, quando voltava para seu claustro, passou a sentir que a própria acomodação se tornava incômoda. A realidade, talvez, pudesse ser menos escura que aquele espaço limitado onde seu mundo se resumia.

Seria aquele o momento de permitir que seu mundo crescesse? Ao se questionar sobre isso sorriu. Começava a cogitar a possibilidade de participar de própria vida, ainda que fosse pela vida de um personagem de ficção.

O tempo começou a ser medido por dois momentos que eram mais que simples marcadores: o copo de água acompanhado de um beijo pela manhã e o horário da série cômica a tarde.

Passou a dormir menos do que as dezoito horas que costumava dormir rotineiramente, e começou a se envolver nas tramas e nos enredos da vida de um personagem da série: encontrou um sentido.

Sem perceber, trouxe aquele homem para dentro de sua vida. De repente, se via rindo ou chorando com as narrativas que não eram dela, nem para ela, e sabia disso. Mas voltava a sentir, e isso era bom.

Precisava dizer, de algum modo, que estava viva, ainda que fosse uma vida imaginária. Acreditem, isso já era um avanço.

Essas novas experiências deram consistência aos encontros terapêuticos que aconteciam havia quase cinco anos, antes sempre permeados de silêncios e de uma passividade quase inquebrável. Agora, enfim, havia algo para ser trabalhado.

Depois de se apaixonar platonicamente pela única pessoa por quem se sentia realmente cuidada, seu psiquiatra, foi comunicada de que o número de consultas diminuiria gradualmente, poie ele seria transferido para outra cidade. Mesmo sabendo esse momento chegaria, quando ele partiu, ela lamentou desesperadamente: chorou uma perda que a paralisou, embora, no fundo, estivesse grata por ter sido vista em seu vazio por aquele homem.

Ele havia despertado nela um tipo de sentimento que acreditava não ser mais capaz de sentir: a falta, dentro de um mundo completamente faltante. No meio do silêncio que a distanciava do mundo, ele havia sussurrado seu nome, e ela, pela primeira vez em muito tempo, havia ouvido.

O novo médico era ótimo. Ainda que as consultas continuassem espaçadas, criaram um vínculo de confiança, e isso a fez sofrer cada vez menos pela perda afetiva anterior. Aprendeu a abrir espaço para novos sentimentos. Talvez agora ela não odiasse tanto Heráclito: sentia que havia saído do lugar, e isso era mudança. Eis a impermanência sobre a qual ele tanto apregoava.

Em uma tarde, daquelas que ela já esperava com certa doçura, na companhia da menina e de seus novos agregados televisivos, foi tomada por um sentimento que ousou chamar de felicidade.

Lembrou-se que, antes de desaparecer, já tinha sido feliz. Amava escrever e falar sobre política, e não raramente se envolvia em causas humanitárias. Também lia. Lia vorazmente. Gostava de aprender e era apaixonada pelos livros com suas histórias maravilhosas. Sentia-se bem na solidão que sabia que eles carregavam. Alguns eram como ela: invisíveis. Acreditavam que, quando eram lidos, ganhavam sentido e existência como livro. Quiçá, ela também pudesse ganhar um algum dia? Talvez, apenas a sensação de se vista bastasse. Quando tinha parado de bastar? Tinha bastado algum dia?

Também estudara filosofia em uma escola para padres, onde precisou enfrentar o desafio de ser mulher e a limitação da falta do tempo. Quase não podia acreditar que já tinha tido uma vida cheia: faculdade, trabalho, família e seus inseparáveis amigos-livros.

A questão é: cheia de que?  Cada um sabe a ilusão que vive.

Há quem cogite que seu distanciamento do mundo real tenha se devido ao excesso de informação. Nietzsche foi o vilão por algum tempo, mas depois perdeu o posto para Freud e suas teorias sobre a formação do inconsciente. Ironia ou não, todos passaram a culpar o pai da psicanálise pela sua falta de compreensão de si mesma.

Ela entendia que pessoas precisam atribuir culpas, a alguém ou a alguma coisa, pois isso as livra das responsabilidades e isso, além de cômodo é ideal. Com ela, não era diferente: sempre havia alguém a quem culpar por ter se perdido. Ainda assim, sabia que não existiam culpados, porque não havia culpas. E, se por acaso elas existissem, talvez fosse justo atribuí-las a si mesma.

Naquela época, ela se sentia melhor quando tinha ideias descabidas e mirabolantes, que preferia chamar de criativas. E naquele momento, depois de tantos anos, estava tendo uma dessas ideias: queria que seu “melhor lugar do mundo”, como secretamente nomeara seu personagem preferido, soubesse de sua existência.

Desejava ser vista por ele, e a única forma de acessá-lo seria por meio da escrita. Assim, naquele instante em que se sentia novamente apta a pertencer de verdade, decidiu que queria se sentir melhor. Era tempo de colocar em prática sua primeira ideia mirabolante e descabida, ou, como gostava de dizer, criativa: escreveria para ele.

Naquela mesma noite, sentou-se à mesa, diante de um caderno. Antes de começar a escrever, lembrou-se dos tempos em que as palavras passeavam entre sua cabeça e seus papeis com leveza e autonomia. As palavras eram suas melhores amigas, mas, em algum ponto do caminho, as afinidades diminuíram e elas deixaram de alcançar seus sentimentos. Acompanharam-na até a beira do abismo, mas, quando ela se jogou, as palavras entenderam que ela deveria ir sozinha.

Ela chorou. Olhou ao redor, não com curiosidade, mas com uma nostalgia silenciosa e comovente. Talvez tenha sido saudades da intimidade que um dia tivera com as letras.

Entre seus antigos cadernos, encontrou o diário. Folheou-o. Começava repleto de linhas escritas, mas jamais fora concluído. Os dias daquele diário simplesmente havia deixado de existir, assim como os dias de quem o escrevia. Ela o fechou. Sabia o que tinha deixado para trás e não desejava continuar de onde parou. Dessa vez, queria começar uma nova história, e estava pronta para isso.

A princípio, estranhou a maneira com que as palavras saíam e como seus pensamentos tomavam forma. Aos poucos, percebeu que elas sempre estiveram ali, mesmo quando vivia na escuridão. Entendeu que mantinha os olhos fechados, talvez para se proteger de si mesma, e por isso não as via.  Agora compreendia que as palavras nunca haviam saído de dentro de sua alma e que ela nunca fora uma ameaça para si mesma.

Era só uma questão de tempo até descobrir como olhar para fora e voltar a escrever com sentimento e verdade.

O mesmo tempo que a havia levado, agora cumpria função de devolvê-la, mesmo que os obstáculos não fossem raros.

As drogas ainda a mantinham dentro de si e a vigilância de terceiros cerceavam seu espaço externo. Mas, dentro de si ela crescia. Mesmo vivendo na ausência de quem um dia fora, sentia-se mais forte do que antes.

Finalmente, começou a escrever.


Capítulo dois

EleO bip do relógio o lembrava que estava atrasado e, como sempre, precisava correr atrás do tempo. Desceu rapidamente do avião, onde um carro já o aguardava. Havia anos que não voltava à casa do pai. Considerava ter tido uma infância privilegiada, apesar da ausência da mãe. Ela tinha morrido quando ele ainda era uma criança, mas a madrasta soubera cumprir bem o papel de cuidadora. Cresceu em um ambiente acolhedor e estudou em boas escolas até se tornar o administrador que assumiria os negócios da família.

No primeiro ano na empresa, descobriu que tudo pelo que havia vivido até ali não lhe pertencia, era do pai. Então, entendeu que precisava tomar as rédeas da própria vida: deixou as idealizações paternas em suspensão e partiu para outro lugar, disposto a conquistar seu verdadeiro papel.

Chegou em uma terra estrangeira sem conhecer nada e nem ninguém, mas conhecia a si mesmo e sabia onde queria chegar. Isso bastou. Incessante em sua busca, trabalhou, se reinventou e, depois de inúmeros 'nãos', soube aproveitar cada ‘sim’. E lá estava ele colhendo seus frutos: do rádio ao cinema, do anonimato ao estrelato.

Ainda que não tivesse seguido os planos que o pai traçara para ele, nunca se distanciaram. Sempre se falavam, embora ele raramente tivesse tempo de visitá-lo. Aquela era a primeira vez que voltava ao lugar onde crescera, depois de quase dez anos.

Agora, estava ele no banco de trás de um carro, acompanhado da noiva e prestes a reencontrar o próprio passado. Certamente, a saudade do pai era o principal motivo de sua volta à terra natal, mas também precisava de paz. Ele sabia que poderia encontrá-la ali, exatamente como havia deixado há muito tempo.

Durante o trajeto entre o aeroporto e a propriedade do pai, questionou-se se estava fazendo a coisa certa. O preço da independência lhe custara o pior e o melhor de si, preferia contar essa versão a si mesmo, talvez a única verdade que conseguia suportar quando se olhava no espelho.

Quem sabe, no fundo, ainda tivesse esperança de que voltar às origens compensaria o descontrole que a fama havia trazido consigo. Havia acabado de cumprir um contrato de quase quatro anos ininterruptos com impecável dedicação, e isso já era motivo suficiente para que merecer um período de descanso. Estava exaurido. Imaginou que revisitar antigas lembranças talvez pudesse ajudá-lo a recordar o verdadeiro motivo de estar onde estava naquele momento.

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se tranquilo ao olhar para a linda mulher que estava ao seu lado. Com ela, havia suportado momentos difíceis, e sem dúvidas, outros demasiadamente prazerosos. Perguntou-se se a amava de verdade ou se apenas a queria bem. Depois sorriu com ternura, pois entendeu que querer bem era mais suficiente.

O início da relação fora conturbado demais. Sua total falta de limites e descompromisso afetivo eram quase inaceitáveis. Ainda assim, ela sempre soube que a prioridade daquele homem era seu trabalho, talvez por isso tenha decidido ficar. De certa forma, isso o confortava, pois, sempre que havia algum revés, ele tinha para onde voltar e se recompor: ela estava lá e era isso que contava.

Afinal, ele sabia que grandes amores só eram vividos diante das câmeras. E, na grande tela, ele já tinha vivido quase todos.

Ao ver o pai, percebeu quanto tempo havia passado. Apesar da mesma vivacidade no olhar, encontrou rugas no rosto e uma certa sobriedade na alma, aquela que só existe em quem já compreendeu que não é eterno.

Salvo por um quadro de Gustav Klimt na parede, sentiu que havia voltado no tempo: tudo naquele lugar permanecia exatamente como deixara. Era boa a sensação de relembrar, naquela casa empoeirada na memória, as histórias de antigos amigos.

Quando entrou em seu antigo quarto, sentiu o coração aquecer com as várias lembranças. Não fosse a presença da noiva, teria experimentado a mesma sensação de liberdade que o envolvia naquele lugar. Ali, era escravo apenas das próprias regras.

O jantar foi servido no horário previsto, e pareceu que ele nunca havia saído dali.  Era como se tudo tivesse acontecido ontem: as conversas informais, o cheiro e o sabor da comida, o tilintar dos copos, o fogo vacilante das velas e a alegria acolhedora. Ao se deitar, foi tomado por uma nostalgia terna que o emocionou. Sentiu-se grato por aquele momento: enfim, estava em casa.

Com o passar do tempo ele já se sentia renovado. Eventualmente, chegavam algumas correspondências, mas ele pouco se interessava por elas, embora notasse um remetente constante: apenas quatro letras. Estranhou que alguém ainda se dedicasse a escrever cartas que, aparentemente, não esperavam respostas, já que não havia endereço. Em geral, cartas eram trocas mais afetivas e pessoais e, de alguma forma, exigiam algum tipo de recíproca. Por que uma pessoa dedicaria uma parte de seu tempo sem esperas?

Independentemente de qualquer coisa, estava firme em seu propósito de se excluir do mundo: vivia o seu tempo sabático.

Numa tarde, enquanto observava os verdes campos pela janela 0 quarto, o vento fresco trazia um leve aroma mentolado, misturado a uma paz que ele quase chamou de tédio. A casa totalmente vazia e terrivelmente silenciosa. A noiva havia ido até a cidade com a madrasta, e o pai foi chamado ao estábulo por algum motivo que ele desconhecia. Sentiu-se atormentado por aquela calmaria e procurou algo que o tirasse daquele estado de tranquilidade inquietante.

De soslaio, viu sobre a pequena escrivaninha, o acúmulo de envelopes manuscritos com cuidado e capricho: aquelas correspondências. Até então, estava relutante em lê-las, mas naquele momento, pareciam ter o poder de libertá-lo de apenas estar ali.

Pegou-as com certa curiosidade. Tinha certeza de que haviam sido enviadas por uma fã ensandecida, que provavelmente havia subornado alguém para conseguir seu endereço junto a algum integrante de sua antiga equipe de trabalho.  Perguntou-se por que uma pessoa se daria a tanto trabalho com tamanha dedicação. Sentou-se confortavelmente, organizou as cartas em ordem de data e começou a se aventurar nelas.

Ele tinha razão: definitivamente era uma fã. Mas, ao contrário do que imaginara, não era do tipo invasiva a que ele estava acostumado, que escrevia declarações de um amor descontrolado e doentio, quase sempre ameaçadoras.

Era uma admiradora sensata, que demostrava delicadeza nas palavras e honestidade na gratidão. Tratava-se de uma mulher contando sua história: da grave depressão que a havia definhado, até os dias atuais, em que ela, pouco a pouco, recuperava sua autoestima. Atribuía essa mudança a uma feliz identificação com um dos trabalhos que ele havia feito na TV. Ela expressava o quanto era grata a ele e o quanto ele tinha sido, e ainda era, importante em seu processo de redescoberta de si mesma. Era totalmente diferente: admirava-o porque ele era inspiração, não porque era celebridade.

Sentiu-se realizado, mais do que satisfeito, ao saber que havia impactado de um modo tão significativo a vida de uma pessoa.

Depois que as leu, dobrou todas as cartas vagarosamente, com certa reverência, e juntou-as em um único monte. Precisava de tempo para digerir toda aquela história que, certamente, não havia acabado.

Chegou a olhar para a lixeira, mas não teve dúvidas: guardou cuidadosamente aquele pequeno pacote na gaveta da escrivaninha. Não conseguia compreender, mas sabia que estava diferente. Não uma mudança planejada, como as que costumava fazer para interpretar um personagem; era uma mudança dele mesmo, seja lá quem ele fosse de verdade.

Saber sobre aquela mulher o fez perceber que havia algo em si que desconhecia. Sentiu-se provocado por algo novo, um medo salpicado de prazer, um espaço que se expandia, uma sensação não experimentada, mas tão presente que se fazia quase palpável.

Em menos de uma semana, ele leu e releu todas as cartas que havia recebido inúmeras vezes. Aquilo lhe deu a convicção de que conhecia aquela mulher melhor que a si mesmo. Talvez porque ela se deixasse conhecer com facilidade; talvez porque, de alguma forma, ele precisasse conhecê-la.

Passou a se ocupar daqueles longos textos de letras tremidas e, à medida que novas cartas chegavam, novas narrativas se formavam, novas idealizações eram criadas. Notava-se mais firmeza nos traços das letras e na escolha das palavras.

Os sentimentos se tornavam tão autênticos e honestos que, por vezes, ele invejava a força que ela tinha.

Em suas novas cartas, ela discorria com tanta clareza sobre as dores de não dizer, de não se ouvir, de se anular até deixar de existir, que ele chegou a temer se perder também. Escrevia sobre a ausência de sensação que era viver em um vazio atemporal, e ele se comovia.

Passou a escrever sobre seu cotidiano: os livros que gostava de ler, os filmes que eventualmente assistia e as coisas simples que começava a fazer. Ele acompanhou, passo a passo, o caminho que ela trilhava em busca de si mesma. Em pouco tempo, já havia lido todos os livros que ela mencionara e assistido todos os filmes que ela citara. Criou para si uma “vida dela”, moldada a partir da vida que ela narrava.

A intenção dela era apenas contar sobre sua paixão sem expectativas, mas, de algum modo, ele estava retribuindo, ainda que sem perceber. As cartas tornaram-se um refúgio, um lugar onde ele aprendia dela e com ela sobre coisas pequenas e importantes que acabaram tomando um sentido maior para ele. 

De repente, ele já não conseguia mais tirá-la de seu pensamento. Havia se envolvido com a história dela, assim como ela, um dia, havia se envolvido com o personagem dele. Algo novo surgia, silencioso e intenso, e ele percebeu que, de certa forma, também estava sendo salvo.

Viveu com ela através de seus escritos, cada sofrimento, e riu com ela todas as alegrias. Certamente, conhecia aquela mulher mais do que poderia supor. Com o tempo, porém, as cartas ficaram mais espaçadas, e ele experimentava a falta de saber sobre alguém que precisava saber.

Até que um dia, chegou um pacote, e dentro dele, uma carta, que ele jamais imaginaria ser a última. Quando soube disso, se sentiu mal. Era como se algo dentro dele tivesse se rompido. Algo essencial, que fazia diferença em sua existência, estava sendo levado, e ele nada podia fazer. Ficou atordoado, sem compreender se o que doía era a falta de tê-la ou a necessidade de tê-la.

Ainda que se questionasse sobre muitas coisas, uma certeza ele tinha: precisava da companhia daquela mulher.

Sentou-se afastado de todos para reler a despedida. Era difícil racionalizar a situação, mas era justo que as cartas tivessem cessado. Afinal, ninguém é capaz de sustentar por muito tempo, um relacionamento unilateral. Ela precisava ampliar o próprio mundo e seguir em frente.

Por um instante, para justificar a dor que sentia, convenceu-se de que ela estava sendo egoísta. Pensou que, de alguma forma, havia ajudado e que ela fora grata, mas não compreendia por que nunca lhe dera a chance responder. Sentiu-se usado, e imediatamente, se arrependeu.

Em um mundo real, ele talvez nem tivesse aberto aquelas cartas, e ela estava certa disso. Tudo que ela precisava era escrever; ele, não necessariamente, precisava ler.

Percebeu, então, que já não conseguiria enxergar a vida senão pelos olhos dela, e duvidou da própria sanidade. Estava completamente dependente daquela relação improvável que criara. Chorou por ele mesmo... e, ainda mais, por ela.

Pensava nela mais do que deveria e, aos poucos, uma tristeza discreta, porém constante, passou a tomar conta de seus dias.

Como se não bastasse, a noiva percebeu que aquele noivado já não fazia sentido: ele não estava feliz ao lado dela, e ela sabia. Resolveram, então, apenas separar os quartos. Tudo foi civilizadamente conversado, como se pudessem negociar o fim de um afeto. Evitaram escândalos, como bons atores cansados.

Pouco depois, ela contou que tinha se envolvido com alguém na fazenda e que sentia muito por tudo aquilo. Ele também sentia, talvez não por ela, mas por tudo aquilo. Ainda que não a amasse como deveria, estava acostumado à boa companhia dela.

Reler as cartas já não era suficiente, ele precisava agir.

Entrou em contato com seu agente e amigo pessoal, pedindo que encontrasse uma pessoa. Não deu detalhes: mencionou apenas o nome do hospital onde ela havia sido atendida após a tentativa de suicídio, a data aproximada, que coincidia com a estreia da série, e as quatro letras do remetente, que acreditava se tratar das iniciais do nome dela.

Duas horas depois, sua idealização se tornava real.

E agora?

Pensou em escrever para ela, mas se sentiu impotente diante da própria limitação em lidar com aqueles sentimentos tão novos.

O que poderia dizer? Que estava apaixonado pela imagem que criara dela? Que não sabia o que sentir diante da ausência de suas cartas, e que algo de imenso valor havia sido tirado?

Com o tempo, compreendeu: ela se envolvera com um personagem, alguém que não era ele de verdade. O orgulho, o medo e a dúvida o deixaram inerte.

Sem forças, releu as cartas em busca de esperança. Ainda não estava pronto para deixá-la ir.

Encontrou-a em uma rede social, e ficou eufórico em revê-la, afinal, de certo modo, já a conhecia.

Passou a seguir seus rastros, apreensivo ao perceber que ela seguia em frente, sem ele. Ficava horas conectado, observando cada movimento, cada traço de presença virtual. Ela se tornara quase uma obsessão. Mas não era doentio, ao menos ele acreditava que não. Só precisava que ela soubesse que ele a amava.


Capítulo três

ElaTer voltado a escrever revelou-lhe uma possível saída de seu ostracismo. Passava horas se dedicando a contar coisas ao homem com o qual criara tantas ilusões. A princípio, seria apenas uma única carta, cujo propósito era fazê-lo saber da importância, literalmente vital, que tinha para ela.

Não precisava de respostas; e, sem elas, cresceu um certo deleite em poder dividir com ele suas agruras e contentamentos por meio de longos desabafos.

Escrever a mantinha em uma espécie de frenesi que a impulsionava a fazer, a cada dia, um pouco mais, com uma única finalidade de ter o que contar ao seu confidente.  Sem perceber, tornara-o seu melhor amigo e, mesmo sabendo da impossibilidade de ele tomar conhecimento daqueles manuscritos, gostava de supor que talvez existisse essa possibilidade.

Acreditar nessa hipótese a deixava mais disposta para levantar-se todos os dias. Tudo o que fazia, transformava em palavras e as direcionava a ele: suas lutas internas, suas tristezas, inseguranças, e os prantos silenciosos, repentinos e intensos. Também gostava de compartilhar o que lhe causava encantamento: a sensibilidade de um bom livro, a emoção de uma música comovente ou um roteiro inteligente de algum filme.

Fato é que, em pouco tempo, passou a confiar inteiramente nele. Suas cartas tornaram-se tão reveladoras que, muitas vezes, acabava se conhecendo um pouco mais ao se deixar ver por ele.

Com o passar do tempo, percebeu que tudo o que fazia era movido pela intenção de contá-lo, e sentiu receio. Tinha plena consciência da irracionalidade de seu atoe, ainda assim, insistia nele para continuar se sentindo viva. Havia projetado na figura daquele homem toda sua possibilidade de recuperação e acabou se envolvendo em algo muito maior do que poderia imaginar: estava totalmente entregue a algo que não existia.

Não temia desnudar sua fragilidade diante dele, confiou-lhe seus mais terríveis sofrimentos, intercalando-os com as inconstantes alegrias e raras vitórias. Derramou cada sentimento naquelas cartas, desejando que naquela relação unilateral houvesse algo mais que simples gratidão.

Nunca havia esperado reciprocidade, apenas encontrara, na escrita, uma maneira de se apresentar para um homem que, ao não se pronunciar, deixava implícita sua aceitação. Era poderoso encontrar alguém capaz de suportar seu peso sem julgá-lo. Precisava apenas ouvida, ou melhor dizendo, lida.

Entendia perfeitamente que tudo aquilo caminhava na contramão da razão e, talvez por isso, não tinha dúvidas em depositar sua confiança e seu amor em alguém que jamais pudesse machucá-la.

Sabia que carregaria aquele homem para sua toda vida e, como não esperava nada dele, tampouco pedia nada em troca.  Apenas lhe atribuiu o cuidado de seu coração, e ele correspondeu perfeitamente, existindo apenas na medida do que era necessário.

O interessante de se apaixonar pelo inexistente é a impotência que nele habita:  incapacidade de subjugar quem ama. Ele jamais a abandonaria porque ela nunca fora dele de fato. E era exatamente disso que ela precisava: ausência de promessas, ausência de cobranças.

De repente, ela se perdeu. Estava completamente enredada na armadilha que ela mesma havia criado: envolvera-se absurdamente com um leitor que jamais a lera. Ele era apenas o eco de mundo fictício que ela tinha trazido para morar em seu mundo real. Mas, depois de mostrar se por inteiro ficou confusa.

Quando percebeu que não deveria acreditar naquela sensação de ser compreendida por alguém cuja existência sequer sabia se era real, entendeu que tinha um problema, e talvez insolúvel. Mais do que estar apaixonada, ela estava amando alguém que não conhecia.

Decidiu, então, que já era tempo de se livrar daquela loucura antes que fosse arrastada por ela para um lugar mais profundo do que aquele de onde havia saído. Não podia voltar à escuridão do quarto, não por covardia, mas por ela mesma, e por tudo que ela acreditava ser capaz de viver.

Resolveu reinventar-se: montou uma pequena biblioteca, entrou nas redes sociais, e comprou dois diários, sendo um deles para presente. Já era tempo de desviar o foco do irracional e encerrar aquele ciclo.

Escreveu ao amado uma última carta, regada por lágrimas sinceras, e a colocou junto ao presente que lhe enviaria. Queria que aquele gesto simbolizasse perspectivas de futuro para ela mesma, mas agora sem ele.

Na primeira página, deixou escrita a lápis uma delicada sugestão: que ele escrevesse, caso algum dia se sentisse sozinho. A escrita, talvez, também pudesse salvá-lo de si mesmo.

Enviou o pacote. Gostava de pensar que ele, ao menos uma vez, pudesse lembrar dela com carinho, como quando cruzamos, por acaso, com alguém desconhecido que nos oferecem um sorriso gentil, e em algum momento do dia ainda recordamos esse gesto, embora nunca mais o vejamos.

Ele a havia resgatado do limbo, e que agora ela sabia que já podia caminhar sem ele. Queria continuar sendo grata, derramando sua vida em páginas em branco, que talvez jamais fossem lidas. Mas precisava admitir para si mesma que o limite havia sido ultrapassado, e que, a partir dali qualquer retorno seria uma segunda morte.

Se tinha duas vidas, já havia usado a primeira. Precisava preservar a segunda.

Mesmo parando de dar-se através das palavras, continuou a guardá-lo em seu íntimo. No início, foi um tanto complicado: caminhar sem seu confidente pesava demais, e encontrar onde se apoiar parecia quase impossível.

Passar passa por um problema mental é bem diferente de passar por qualquer um outro. Quem enfrenta uma enfermidade física de saúde, se trata, e muitas vezes. Mas quem enfrenta por um problema mental, mesmo se tratando, acaba se tornando o próprio problema. Fica marcado.

Com essa compreensão, achou mais seguro não confiar, e se manteve reservada. Já havia aprendido a abrir mão de coisas que lhe eram importantes, e deixar o seu “melhor lugar no mundo” no meio do caminho seria apenas mais uma renúncia.

A vida seguiu.

As ilusões permaneceram guardadas em algum canto de si, enquanto acompanhava as atividades da filha e reconstruía, pouco a pouco, a própria história, uma vida que já não lhe parecia tão esvaziada de sentido.

A disfuncionalidade do casamento a empurrava ainda mais para dentro das próprias fantasias, que continuavam a ocupar boa parte do tempo livre, embora agora com certa parcimônia e, sobretudo, com nova cumplicidade consigo mesma.

Encontrou na internet um refúgio ideal para seus desejos e lamentos e, desde então, raramente se afastava do mundo virtual.

Tinha sede de aprender coisas novas e conhecer o que estava além do que seus olhos podiam alcançar. Matriculou-se em um curso online de criação de histórias, e chegou a cogitar a possibilidade de escrever um livro sobre sua experiência no cárcere de seu demônio interno, mas empurrou essa ideia para o final da lista de coisas que desejava realizar.

Visitar as redes sociais era surpreendente: havia nelas um ar de modernidade misturado aos tons de nostalgia. Não raras vezes, surgia alguém que ela havia esquecido no tempo, ou abandonado em sua história, e que, ainda que de maneira virtual, insinuava uma suposta reaproximação. Achava curioso. Aceitava a todas as solicitações de amizade. 

Ainda assim, tinha recaídas constantes. Sofria crises recorrentes de sufocamento diante do que deixava de ser escrito e lamentava a ausência de seu suposto interlocutor, com saudades dolorosas de coisas que nunca haviam acontecido.

Apesar de não estar sempre bem, considerava seus sofrimentos como algo positivo. Até pouco tempo, era impedida por ela mesma de sentir qualquer coisa, e agora se permitia sofrer, ainda que fosse por algo inventado.

Às vezes, se questionava se seria melhor ficar naquela vida, ou voltar ao quarto escuro. Talvez, o quarto escuro até fosse menos doloroso, mas ela tinha certeza de que não cabia mais nele. Tinha tomado forma, e ainda que debilitada, tinha algumas razões para levantar-se pela manhã.

Por tudo o que foi dito naquelas cartas, ela merecia continuar, e estava disposta a isso, mesmo que, em sua alma, ainda vagasse por um vazio imenso.

Frequentemente, fantasiava sobre como seria sua vida se tivesse feito outras escolhas. Certamente, ela já havia amado muito, e sido amada também, mas eram amores que não suportavam profundidade; e quando precisaram caminhar juntos, preferiram tomar outros caminhos. Então, lançava-se nas histórias que criava. Nelas ela sempre era a protagonista, e seu “’melhor lugar no mundo” continuava sendo seu melhor lugar do mundo.

Aquele sorriso perfeito e os olhos reluzentes passeavam com frequência por seus sonhos. Dedicava boa parte de seu tempo naquele mundo paralelo, onde era mais fácil administrar seus sentimentos: era um lugar seguro. Constantemente, sentia-se estranha, tinha a impressão de flertar com o absurdo, mas não conseguia evitar.

Brincar com o que ela era capaz de inventar sobre ele lhe causava sensações novas, e, toda as vezes que a angústia do desconhecida se aproximava, ela corria para as esse refúgio de fantasias onde, enfim, podia ser feliz. 

O curso que fazia tornava-se cada vez mais interessante, e, a cada dia, ela se via mais envolvida com seus pequenos projetos. A sua sensação de segurança e de controle sobre si mesma crescia, e ela se tornava mais confiante.

Conheceu seus colegas virtuais e, em pouco tempo, criaram um grupo de afinidade criativa, onde trocavam pequenos textos. Alguns se mostravam mais prestativos que outros, e, dos quase cinquenta inscritos, apenas dois ou três demostravam real interesse pelo que ela escrevia. Não era muito animador, mas ela estava determinada e não desistiu. A escrita tinha esse poder anestésico, ainda que temporário.

Ela também se interessava pelos escritos de seus colegas e, vez ou outra, percebia-se especialmente tocada por algum texto em particular.

Com o passar do tempo, quase reconhecia o escritor pela peculiaridade de escrita, impregnada de uma beleza subjetiva e dolorosa. Era uma escrita intensa, permeada de questões existenciais e sutis intertextos familiares que lhe eram bem familiares. Certamente, o autor transitava por temas que também eram interessantes para ela, além de parecer ter passado por dores singulares. Encantou-se.

Não  planos de trocar seu relacionamento platônico por outro, mas, certamente, poderia criar laços com alguém que a compreendesse por ter percorrido o mesmo caminho que ela.

Aproximou-se do colega que escrevia aqueles textos cheios de alma e acabou descobrindo que ele também lia os dela. Era um bom rapaz. Solícito, agradável, e falava sobre tudo com desenvoltura e sagacidade. Sua gentileza e generosidade eram comoventes, e faziam-na acreditar, ainda que timidamente, na bondade das pessoas.

Com o tempo, sentiu-se à vontade para trocar mensagens com ele na sala de estudos, conversas que ia além das pontuações textuais ou das contribuições criativas para escrita. Trocavam ideias sobre o tempo, sobre a floração dos ipês, sobre programas de tv. Sobre línguas raras e, às vezes, até sobre nada. Não eram assuntos profundos, mas que deixavam se conhecerem um pouco mais.

Ficou perturbada quando ele quis saber qual era a cor que ela mais gostava. Teve que pensar. Como não tinha certeza de uma coisa tão simples? Ninguém nunca havia se importado com isso antes e, ao que parecia ela também não.

Mas agora, enfim, tinha uma cor preferida. E apenas uma pessoa no mundo sabia qual era.

Custou a acreditar, mas sentia que tinha um admirador.


Capítulo quatro

EleAinda que não fosse justo, passou a observá-la no mundo virtual, sem que ela soubesse.

A cada dia, encantava-se mais com suas escassas alegrias e por suas tristezas tão peculiares. Conseguia enxergar, em cada gesto e expressão, as mesmas linhas que ela havia escrito nas cartas, e chegou a sentir uma espécie de obsessão pela companhia daquela mulher. Via-a com todas as suas vulnerabilidades, com sua beleza e intensidade, e isso o atormentava, mas de uma maneira boa.

Assim que soube que ela havia se matriculado em um curso online, ele também se inscreveu. Embora tivesse prometido que não assumiria nenhum tipo de compromisso enquanto estivesse afastado do trabalho, percebeu que não poderia cumprir essa promessa. Tudo o que o fazia sentir-se pleno estava ali, e ele não abriria mão desse novo homem que estava se tornando. Ter aquela mulher por perto, ainda que fosse virtualmente, tornara-se uma necessidade. Estava profundamente envolvido para recuar, mesmo que ela nada soubesse.

A princípio, foi difícil conquistar a confiança dela. Embora se mostrasse inteiro nos textos que lhe enviava, não sentia reciprocidade. Ela o impressionava pela maneira com que escrevia, mas ele não a alcançava; em nada chamava sua atenção.

Mesmo frustrado, ele compreendia que ela apenas estava sendo quem sempre fora. Conhecia-a bem pelas cartas e sabia o quanto seria difícil conquistar sua confiança depois de tudo que ela havia vivido. Teria que se empenhar mais, se quisesse conquistá-la como, um dia, acreditou tê-la conquistado. Estranhamente, sentiu ciúmes de si mesmo, e logo tentou abstrair essa ideia.

Estrategicamente, usava as cartas dela como base para os textos que apresentava no curso, e logo começou a despertar o interesse da mulher. Chegou a cogitar a ideia de se revelar, mas percebeu que talvez aquele não fosse o momento. Gostava de ter a sensação de ser o cuidador dela, silencioso e invisível, sem que ela soubesse. Se ela descobrisse quem ele era de verdade, talvez se tornasse arredia, e ele perderia aquele lugar que ocupara, por algum tempo, como seu Queria estar sempre à sua volta leitor oculto.

Quando lia os textos dela, sentia-se em êxtase. Suas palavras o entorpeciam e, mesmo que de maneira mais contida, conseguia enxergar a mulher frágil e, ao mesmo tempo, forte que ela era.

Ela se tornou seu lugar seguro, e cada vez que lhe escrevia deixava fluir sentimentos e sonhos que, até então, não sabia nomear. Precisava que ela o conhecesse e o aprovasse para que se sentisse bem. Desejava profundamente que ela experimentasse aquele sentimento novo que o consumia.

De forma inexplicável, ela o havia feito descobrir que podia ser alguém melhor, e sempre que sentia vontade de amá-la mais de perto, percebia que estava se tornando o homem que gostaria de ser.

Vivera a vida inteira representando papéis e não sabia que, dentro dele, existia uma pessoa diferente de todas que já tinha interpretado. Precisava compreender-se, mas só conseguia enxergar-se através dela. Ele precisava dela para se ver.

À noite, ela sempre aparecia em seus sonhos, e agora ele compreendia a afirmação de Schopenhauer, que descrevia o sonho como uma loucura de curta duração. Via-a sorrindo e o amando, apesar dele mesmo, e paralisava diante dela com o coração nas mãos. Às vezes, ela estava tão perto que ele podia abraçá-la com força, sentir o perfume de seus cabelos, a maciez de sua pele, e sabia, com absoluta certeza, que pertenciam um ao outro. Acordava irradiado por aquela notívaga presença que o fazia sentir-se mais leve, mas na realidade, sofria com o suposto descaso dela. Cada vez mais pensava em como ela estava tão longe, apesar de nunca ter estado tão perto.

Com o tempo, e com as trocas de e-mails, as distâncias encurtaram, e os dois se tornaram mais próximos. Aos poucos, ela deixava escapar pequenas pistas de que também sofria por um amor, e ele quase enlouqueceu. Queria protegê-la de qualquer dor, mas ouvi-la apenas à distância já não era mais suficiente.

Havia um clamor em sua alma, uma urgência para ser encontrado por aquela mulher, que lhe roubava a calma. Não se sentia inteiro e não podia permitir que sua vulnerabilidade deixasse aflorar mais dúvidas. Entendeu, então, sua impotência diante do inexplicável, e sabia que precisava de respostas: resolveu ir buscá-las.

Ele não queria mais do que ela queria dar.

 

 Capítulo cinco

Ela: Entre e-mails e troca de mensagens na plataforma do curso, cogitou aceitar o convite do colega que havia se tornado um admirador, para jantar. Ele alegou que gostaria de agradecê-la pessoalmente por tê-lo ajudado, e ela concordou, ainda que com certo receio.

Na verdade, tinha medo de que ele descobrisse que não era fonte de inspiração para ninguém, e que, ao perceber isso, se afastasse.

Vivia há anos em um relacionamento de aparências e nunca havia aceitado um convite tão pessoal, muito menos de uma forma tão inusitada. Apesar da apreensão, a curiosidade de conhecê-lo era gritante, e decidiu que não havia nada demais em aceitar um jantar de agradecimento de um colega de classe virtual.

Trocaram os números do telefone e marcaram para o fim de semana vindouro. Ele disse que estava em viagem, mas que estaria de volta e gostaria muito que pudessem trocar ideias sobre projetos de roteiros ou algo parecido. No celular, ele mandou uma carinha feliz, um gesto simples que a fez sorrir sem perceber.

Teve curiosidade em ver a aparência do novo amigo, mas a imagem de perfil era apenas uma frase de Santo Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida”. Os olhos dela se iluminaram. Tratava-se de alguém que, ao menos à primeira vista, parecia valer a pena conhecer. Além do encantamento, a ideia de entender como roteirizar uma história para o cinema também lhe pareceu interessante.

Por mensagens, começaram a se falar com mais frequência. De repente, chegava um coração ou uma rosa pela manhã, e ela sorria novamente. Era uma situação bizarra, afinal, nem sequer sabia o nome verdadeiro dele. Usava apenas o codinome “colega escritor” e pronto.

Sabia muito sobre seu interior; quase tudo podia ser lido através dos textos dele. Nunca escondera quem ele era em suas palavras, e essa maneira de se desnudar a encantava. Tinha medo de perguntar o nome ou cobrar algo que pudesse ser cobrado dela também, e gostava da ideia de deixar essas revelações para o momento do encontro.

O que realmente importava, ela já sabia: ele era tão humano quanto ela com amores e dores verdadeiras. Só o fato de ele ser real, os colocava em igualdade. Definir a pessoa pela aparência nunca fora uma boa ideia, e quanto ao nome verdadeiro, não era tão importante. Embora devesse ter tido coragem de perguntar antes. Agora, achava pouco adequado perguntar. Não importava: no jantar iriam saber um do outro o que ainda não sabiam, e ela começava a se sentir seduzida por essa ideia.

Os dias que antecederam o encontro foram de pura euforia e de noites mal dormidas, perdidas em situações hipotéticas sobre o que poderia acontecer. Chegou a cogitar que poderia se tratar de um sequestrador, mas, quem pagaria resgate por ela? Riu alto desse pensamento estapafúrdio e continuou alimentando suas expectativas. Não sabia ainda, mas seus risos se tornariam constante.

O colega lhe parecia confiável e, além dela acreditar em sua intuição, aquele encontro passou a ser o mais esperado de sua vida recente, quiçá, toda a vida. Ela não abriria mão dessa aventura. 

 

Capítulo seis

Ele: Ficou eufórico quando ela finalmente aceitou seu convite para jantar. Não conseguia se conter. Ligou para seu agente e pediu que providenciasse tudo, discretamente. Trabalhavam juntos há anos e nunca havia feito um pedido tão descabido. Mas pagava bem, inclusive pela discrição, e sabia que seria atendido.

Naquela tarde, estava inquieto. Precisava gritar, extravasar de alguma forma a energia sem precedentes que o tomava ao pensar na proximidade dela. Desesperadamente, necessitava de espaço.

Ele mesmo selou o cavalo que o levou a cavalgar sem rumo pelos campos da fazenda, que não conhecia tão bem quanto imaginava. Enquanto cavalgava, o vento batia no seu rosto e, num gesto de plenitude, abriu os braços e sentiu o coração pulsar de contentamento.

Havia esperado muito por aquele encontro e queria que o mundo soubesse. Já distante, desceu do cavalo, caminhou um pouco, deitou-se na grama e olhou para o céu. Sentiu o calor do sol sobre a pele e ouviu o som suave da brisa nas folhas, junto ao cheiro do mato verde. Admirou-se ao perceber que vivera tantos anos naquele lugar e nunca tinha experimentado tamanha sensação de liberdade.

Tudo tinha mais cor. Sentia-se mais vivo do que nunca. Mal conseguia conter a sensação de realização, e agradeceu por ela. Fechou os olhos e pôde imaginá-la ao seu lado. Deu um largo sorriso de satisfação e ficou ali por horas, totalmente absorto em suas fantasias.

Nunca tivera tanta vontade de viver. 

Viajaria em três dias e esses pareciam eternos. Fez inúmeras ligações, cuidou de arranjos e detalhes. Passou horas pensando se deveria enviar flores antes, em como se vestiria e onde a levaria.

O tempo transcorria na mesma medida de sempre, mas para ele parecia descompassado: demorava uma eternidade para passar e, ainda assim, todo o tempo do mundo não seria suficiente para pensar em algo que estivesse à altura dela.

Já não era o que costumava ser. Aquele homem comedido e seguro de si já não cabia mais naquele contexto. Estava eufórico e distante do mundo, e gostava dessa sensação nova, quase perigosa. Era algo novo. E, para além da verdade, enfrentava sérias dificuldades em retomar o equilíbrio habitual. Pela primeira vez, experimentava a perda de controle e, embora se sentisse acuado por seus desejos, podia sentir-se livre.

Era a falta de sentido que, paradoxalmente, dava sentido a tudo aquilo.

Finalmente, o dia chegou. Não estava preparado, mas não havia nenhuma outra situação no mundo em que ele preferisse estar.

Quando desceu do avião, ainda era dia. Enviou uma mensagem para ela avisá-la de sua chegada e contou sobre a ansiedade que sentia por vê-la. Não conseguia pensar com muita clareza. Depois de acomodar-se, olhou pela janela do hotel e percebeu que a orla estava vazia. Resolveu caminhar pela praia.

Perguntou-se como ainda não havia se dado conta da beleza de tudo que o cercava. Pensava nela o tempo todo, o que estaria ela fazendo? Por várias vezes quase cedeu à tentação de ligar, mas conteve-se. Não queria parecer um adolescente, embora se sentisse exatamente como um.

Tentava racionalizar, lembrando a si mesmo que era um homem experiente, que já tinha conhecera milhares de mulheres ao redor mundo. No entanto, sabia que ela era única, e isso o assustava de forma perturbadora. Estaria ele preparado?

O som do vai e vem das ondas dissipava seus temores e dúvidas. O clima agradável e o sol quase se pondo fizeram com que ele se sentasse na areia. Olhando o mar, compreendeu coisas que não eram possíveis de serem explicadas, mas que, de alguma forma faziam mais sentido agora.

Por um momento, repousou dentro de si. Só voltou à realidade quando alguém se aproximou, pedindo uma foto. Ele sorriu gentilmente, atendeu as fãs e, logo em seguida, foi embora. Queria se aprontar para o que o esperava.

 

 Capítulo sete

Ela: Acordou contente. Há muito tempo não se sentia assim: leve, desperta, cheia de expectativas. Tentou escrever alguma coisa pela manhã, mas estava muito agitada e preferiu ajudar a filha com seus afazeres de menina. Talvez isso aplacasse sua ansiedade. Durante a tarde, fez pequenas anotações para possíveis crônicas, mas nada que despertasse sua criatividade. Foi para seu quarto, que já não era escuro, e, por algum tempo, se olhou no espelho. Lamentou ter perdido sua jovialidade. Quase não reconhecia seu próprio reflexo e se perguntava se ainda sabia quem era. Havia muitas marcas e nenhuma delas deixava dúvidas que o passado tinha sido real e que o tempo ainda que fosse cruel, estava aos poucos engolindo sua amargura.

Estava tentando confiar em si mesma e esperava que o encontro daquela noite, fosse mais um passo adiante. Passou as mãos pelos cabelos, ajeitou os óculos e ouviu uma notificação no celular. Sentiu-se esquentar e um princípio de tremor quase a impediu de levantar. Respirou fundo, leu a mensagem e, sorrindo, deu-se conta de que já era hora de ultrapassar seus pequenos limites em busca de algo maior. Já era tempo de encontrar novamente a mulher forte que sabia que podia ser. Encarou o espelho de uma nova perspectiva e começou a ver possibilidades nela mesma. Não se sentia bonita, mas sabia que podia ser mais do que aquilo que via.

Através dos próprios olhos, começou a entender que a morte já havia escapado dela, e que duvidar de seus desejos era deixar a vida escapar também. Deu-se uma última olhada, colocou uma música e foi tomar um banho. A vida a chamava.

A água caía sobre sua frágil silhueta, e ela sentia que escorrer por si todo o peso de ter sido vítima de quem quer que fosse. Saiu renovada e abriu o armário com vontade. Não havia muito o que escolher e ela não se importou.

A vida, até ali, não lhe dera muitas escolhas. Mas naquela manhã ela havia enganado seu armário: comprara uma roupa especialmente para este dia. Agora era a vez de enganar a vida: escolhera, enfim, ser ela mesma. 

 

 Capítulo oito

Ele: Estava nervoso. Não é um jeito ruim, mas com aquela inquietação boa que precede algo esperado. Parecia um garoto que iria para seu primeiro encontro com a namoradinha da escola. Enviou outra mensagem, pedindo o endereço para buscá-la. A resposta veio quase imediata: uma localização. Seria o mesmo o endereço da casa dela? Sentiu o coração acelerar. Estava agitado. Já havia ajeitado a gravata várias vezes.

Pouco antes de sair, pensou em tomar algo para relaxar, mas desistiu. Queria estar inteiro para que ela pudesse enxergar quem ele era de verdade. E assim, saiu.  

 

Capítulo nove

Ela: Estava quase pronta quando ele perguntou, por mensagem, onde deveria buscá-la. Impulsivamente, mandou seu endereço, e ficou assustada consigo mesma: como pôde fazer isso? Agora ele sabia onde ela morava, e ela sentiu-se imprudente. Mas era tarde demais e já não cabiam lamentos: não havia como apagar a mensagem, e nem adiantaria, já tinha sido visualizada.

Pensou nos textos de seu quase desconhecido e lembrou que já havia arriscado a vida algumas vezes por nada; agora, pelo menos, havia um bom motivo. Percebeu que já construía contra-argumentos consigo mesma e sorriu da situação. Havia tempos que não conseguia rir de si mesma, e reconheceu naquele gesto um delicioso avanço: sentir-se autoconfiante era bom.

A filha havia saído com o pai e não havia com o que se preocupar. O interfone tocou: alguém na portaria informou que um carro a esperava. Imediatamente, recebeu uma outra mensagem dele, avisando que o motorista já estava no local combinado e que ela ficasse tranquila: ele se atrasaria alguns minutos, não mais que cinco. Enviou também o nome do restaurante para que ela não tivesse dúvidas e nem medos.

Por um instante, ela hesitou e pensou em desistir.

Olhou mais uma vez no espelho, pegou a bolsa, muniu-se da pouca coragem que tinha e saiu sem olhar para trás.

Aconteceria o que tivesse que acontecer.

 

 Capítulo dez

Ele: Conferiu todos os detalhes e pediu ao motorista que buscasse e a levasse ao endereço combinado. Seu agente já havia providenciado um bom lugar, reservado apenas para ele. Não haveria autógrafos a dar e nem fotografias a tirar. A atenção dele seria somente para ela.

Estava agitado: tinha esperado demais por aquele encontro.

Pegou o carro e, enquanto dirigia, respirava fundo e sorria de si mesmo ao perceber o nervosismo que o dominava. 

Chegou ao local bem antes do horário combinado. Queria que tudo corresse perfeitamente.

Quando ela entrou, ela a viu.

Extasiado, acompanhou-a com os olhos desde a entrada até a mesa.

Ela era real, e isso o assustava profundamente.

Observava-a e podia ouvir o próprio coração descompassado; estava ansioso de um jeito novo, quase infantil.

Imaginou que talvez ela se sentisse desconfortável com a solidão do lugar e teve medo de que ela quisesse ir embora.

Pediu ao garçom que levasse uma bebida até ela e, mesmo trêmulo, sentiu que era hora dele se apresentar.

Ainda que inseguro, levantou-se e foi. 

 

 Capítulo onze

ElaSaiu do prédio e viu o carro à sua espera. O motorista deu a ela uma única rosa com um cartão e simpaticamente abriu a porta do carro. Ela olhou ao redor e sorriu timidamente. Não sabia se tinha sorrido para ele ou para surpresa.

Quem era esse “colega”?

Provavelmente, alguém de posses. Talvez por isso a proposta do roteiro de filme.

Sentiu medo, mas o motorista, simpático, tratou de tranquilizá-la e estendeu-lhe a mão para ajudá-la a entrar. Instintivamente, aceitou o gesto e acomodou-se no banco de trás.

Já sentada, levou a rosa ao rosto e, de olhos fechados, aspirou-lhe o perfume. Perguntou-se, em silêncio: estaria o colega a cortejando? ‘Não!’, pensou. Isso fazia parte do cavalheirismo dele.

Tentou afastar qualquer devaneio. Já estava ali, e tinha ido longe demais para recuar.

Mesmo tomada por um misto de medo e curiosidade, percebeu que ambos, juntos, produziam um efeito inebriante, um perigo calculado, sem cálculo algum, que a atraía.

E, nessa sensação ambígua, cruzou a cidade.

O lugar era discreto e de extremo bom gosto. Ponderou que se tudo desse errado, pelo menos ela tinha gostado do lugar: era amplo, iluminado, e um piano elegantíssimo chamava atenção pela exuberância. Admirada o ambiente minimalista do espaço e foi conduzida por um funcionário até uma mesa.

Não sentia se muito à vontade, e não sabia se era pela ausência de outras pessoas ou pelos longos anos em que havia perdido o contato com o mundo além de seu antigo quarto escuro.

Reaprender a viver ainda lhe parecia um exercício estranho.

O garçom trouxe uma taça e ela, timidamente, agradeceu, recusando. Ele insistiu com gentileza, dizendo tratar de uma cortesia do anfitrião e garantindo que não continha álcool.

Sorriu e afastou-se.

Ela se acomodou melhor, observando o ambiente, quando o som do piano rompeu o silêncio. Surpreendeu-se ao ouvir alguém cantar, e, num segundo, a melodia: "Quién eres tu?"

Reconhecia também aquela voz.

Olhou na direção do piano e, por um instante, perdeu os sentidos. Viu, mas não pôde enxergar. Tentou respirar, sem sucesso, acreditando que a falta de sua medicação estivesse lhe causando alucinações.

Mas não, ela não estava em surto: era ele. Ele estava ali cantando uma música que ela amava.

Sentiu-se entorpecida, como se estivesse sonhando. Parecia não estar completamente consciente, e não podia acreditar que aquilo fosse real. Essas coisas só aconteciam em novelas, e nem nas suas mais impossíveis fantasias ela teria imaginado algo assim.

Emudecida, observou-o se aproximar. Ele perguntou, com serenidade, se podia sentar-se. Ela não respondeu, apenas o fitou, trêmula, confusa, sem conseguir coordenar os pensamentos.

Ele colocou sobre a mesa uma pequena caixa.

Ela não sabia o que fazer.

Ele sorriu, com um leve olhar, pareceu pedir que a abrisse.

As mãos dela suavam. O corpo inteiro estava em descompasso. Abriu o presente. Suas mãos suavam e seu corpo era um todo descontrolado. Pegou o diário com dificuldade, e, quando viu o diário, reconheceu-o.

Sentiu que ia desmaiar.Ele prontamente lhe ofereceu água, mas ela ignorou.

Abriu a primeira página e, então, compreendeu.

Fechou o diário rapidamente, apertando-o contra o peito, e voltou o olhar para o homem diante de si. 

    - É você...!?  

 

Capítulo doze

Ele: Aproximou-se do piano e pediu que tocassem. Tinha aprendido a tocar ainda menino e gostava muito, mas hoje não. Hoje ele cantaria para ela. Era a primeira vez que cantaria uma música para alguém que significava tanto. Escolheu uma das muitas que ele sabia que ela gostava, pois queria que ela soubesse que ele a conhecia bem.

O pianista começou a tocar e, enquanto cantava, ele caminhou até a mesa dela. Ela não estava bonita: ela era linda, mas do ele pudesse imaginar. Era perfeita para ele.

Pediu educadamente para se sentar à mesa e, como ele estava muito nervoso, colocou diante um presente que, dadas as proporções, representava sua própria vida, desde o dia em para de enviar-lhe suas cartas. Aquele diário foi o último presente que recebera dela e, agora, estava voltando para suas mãos.

Precisava que ela soubesse que ela também havia transformado a vida dele. Sentia-se meio bobo, mas desejava poder pedir que ela abrisse o presente, que lesse sobre seu sofrimento diante da ausência dela. Não conseguiu.

Apenas desviou o olhar para o pacote, e ela entendeu que deveria abri-lo. Ele se emocionou quando percebeu que ela reconheceu o presente sem precisasse dizer do que se tratava. Agora, ela sabia quem ele era.

Queria tocá-la, pois precisava saber que não era um sonho. Então, estendeu-lhe a mão... 

 

Capítulo treze

Os doisEle lhe estendeu a mão, e ela, imediatamente, colocou o diário sobre a mesa e retribuiu o gesto. Nada tinha pressa. O tempo, de repente, pareceu efêmero, sem importância. Ele se levantou da cadeira e a conduziu para que ela se levantasse também.

Ele se levantou e a conduziu com delicadeza para que também se levantasse. Ela o fez, mas sentiu que as pernas não sustentaria. Percebendo sua fragilidade, ele a segurou pela cintura e a trouxe para junto de si.

Podia sentir seu perfume dela e, num quase abraço, aproximou seu rosto dos cabelos dela. Ela se sentiu segura e encostou a cabeça em seu ombro.

Dançavam lentamente. Sentiam se únicos e privilegiados.

Estavam imersos em um êxtase de sensações e sentimentos, e, ao som do delicado ritmo da música, as emoções se acomodavam, abrindo espaço para a calma e a segurança.

Já conheciam o coração um do outro; sabiam exatamente quem eram e agora era questão de deixar o tempo fazer seus devidos encaixes.

Com o fim da música, ela despertou de seu sonho e ambos se afastaram. Ele olhou para ela e, com ternura, beijou-lhe as mãos.

Depois desse instante de mútua adoração, sentaram se à mesa. Tudo parecia irreal para ambos, e sentiam que todo o tempo do mundo seria pouco para aquele encontro.

Apresentaram-se oficialmente e trocaram um largo sorriso de descoberta e contemplação.

A noite foi mágica.

Ela mal podia acreditar em tudo que ele dizia.

Ele, por sua vez, sentia uma necessidade urgente de contar-lhe tudo o que havia vivido desde o dia em que lera suas cartas.

Riram e conversaram sobre uma infinidade de coisas, e já era quase manhã quando se deram conta de que já era hora de ir embora.

Ele se ofereceu para levá-la, aproveitaram o trajeto para trocar confidências como se fossem velhos amigos.

Antes de descer do carro, ela não soube o que dizer.

Abraçaram-se demoradamente, e ela só perguntou:

    - Por que eu?

Ele respondeu prontamente:

    - Porque você me deu esperança.

Ela sorriu, desceu do carro e entrou no prédio.

Ambos estavam tomados de contentamento, mal podiam esperar para estarem juntos novamente.

  

Capítulo quatorze

Ela: Fechou a porta do apartamento atrás de si, ainda lembrando para cada gesto dele: o modo como sorria, o jeito como a olhava sem jamais desviar o olhar. Amou a maneira como ele gesticulava, e o som de sua voz lhe parecia quase angelical.

Relembrou todos os detalhes: os cabelos bem alinhados, o rosto de traços firmes, o terno perfeitamente talhado e a gravata que lhe conferia um toque de sofisticação extrema. Seus olhos eram vivos, ele brilhava, e estava sempre sorrindo. Era naturalmente sedutor, carismático. Quase não podia ser real tamanha perfeição.

Ela estivera diante de alguém que, até então, só existia em seus sonhos, e agora estava completamente encantada.

Dentro do apartamento, tudo permanecia escuro, como a ausência dela não tivesse sido notada.

Deitou-se, mas não queria dormir; precisava garantir que o tudo que havia acontecido ficasse guardado na sua memória. Ainda assim, acabou adormecendo, embalada por seus pensamentos.

Pela manhã, sentiu se plena. Queria dançar. Pela primeira vez em anos, havia um motivo real para se levantar da cama. Estava feliz.

Pegou o presente que ganhara na noite anterior e começou a ler. De Lord Byron a Goethe, procurou em sua memória algo que lhe apetecesse tanto, e nada encontrou.

Leu o diário vorazmente.

Podia vê-lo em cada momento relatado ali e se comoveu profundamente. Sentia, via, e sabia: a vida pulsava.

A leitura foi interrompida pelo toque do interfone. O porteiro a avisava sobre uma entrega em seu nome. Ela sentiu seu rosto queimar, correu até a portaria, e recebeu um embrulho que, no fundo, já sabia quem havia enviado.

Abriu o cartão:

    “Finalmente, agora podemos escrever juntos!”

Quase não se conteve. Era mais que um novo diário, era uma nova história que ela queria escrever. A vida que outrora, ela tanto desprezava, agora dava espaço para que ela existisse.

E ela viveria.

Ligou para agradecer, e tiveram uma longa conversa. Ele não estava mais na cidade, mas prometeu voltar por ela.

Agora, mais do que nunca, ela queria ser feliz. Aliás, ela precisava.


Capítulo quinze

EleChegou ao hotel e não conseguiu dormir.

Perdeu-se em seus pensamentos que quase o fizeram perder o voo ao amanhecer. Não queria ir embora, mas era preciso: havia compromissos a cumprir e, para permanecer mais tempo na cidade, seria necessário um planejamento maior. Certamente, ele voltaria.

Estava impressionado com maneira com que ela, naturalmente, havia superado todas as expectativas que ele havia criado. Ainda não sabia como administrar algo tão novo e arrebatador e, apesar da noite em claro, não se sentia cansado. Sentia-se cheio de energia, e se perguntava se aquela sensação fazia parte do processo de apaixonamento. No fundo, buscava uma explicação mais racional para toda aquela mudança, mas não encontrava.

Sentia-se leve, realizado, e isso era suficiente.

Na verdade, era como se tivesse voltado a ser um menino, descobrindo um mundo que não imaginava existir.

Durante a viagem, tentou descansar, mas cada lembrança dela suscitava uma inquietação que ele não queria aplacar: nutria-a, cultivava-a, como quem teme perder algo precioso. Não queria esquecer nada da noite anterior.

Pensou em distrair-se com algo diferente, mas, sem perceber, já relia as velhas cartas. Havia lido aquelas palavras dezenas de vezes, porém agora, depois de tê-la visto, tudo ganhava um novo sentido. Cada frase parecia revelar um pedaço dela que ele, finalmente, podia compreender. Então, teve certeza: conhecia cada nuance daquela mulher, e precisava dela.

Tinha vontade de contar essa nova descoberta ao pai, mas receava que ele pensasse tratar-se apenas de mais uma aventura, como tantas outras. Lembrou-se da noiva e estava ciente que todos sofreriam. Seria uma mudança intensa de ambos os lados: ele havia acabado de sair de um compromisso estável, e ela, uma filha, presa a uma relação que se arrastava há anos sem apresentar sinais de melhora.

No entanto, não havia saída: era arriscar para continuar a viver. Estava enredado pelo bem que ela o fazia sentir e sentia necessidade de retribuir-lhe esse bem.

Para ele, já era inquestionável que deveriam ficar juntos, sob quaisquer circunstâncias. 

Chegou à fazenda pouco depois do almoço e foi direto para o quarto, sem saber o que fazer.

Aquele homem que, até então, parecia autossuficiente e tão seguro de si, agora era refém de um sentimento que vagamente conseguia nomear, e muito menos controlar. Tinha medo, contudo tinha urgência.

Quando o celular tocou, ele se iluminou. Sabia que era ela. Ouvir aquela voz dissipou todos seus receios e dúvidas.

Ficou satisfeito em saber que ela tinha gostado do presente que ele havia deixado. Conversaram durante horas, e mais uma vez, ele prometeu voltar por ela. 

 

Capítulo dezesseis

Os dois: O tempo passava e, ainda que distantes, se falavam com constância.

Acostumaram-se à presença e o cuidado mútuo, mesmo de longe.

Entre eles, nascia uma cumplicidade: compartilhavam não apenas as aleatoriedades do dia a dia, mas também segredos e fragmentos de passados. A necessidade de fazer parte da vida um do outro já era natural, e recuar, agora, seria impossível.

Entre muitas confidências, fizeram planos para se encontrarem novamente, e sabiam que esse encontro não demoraria acontecer. 

 

Capítulo dezessete

ElaSua vida mudou completamente. Sentia-se inspirada a escrever um livro e entendeu que aquela era a oportunidade de começar.

Também se arriscou em meio as tintas, comprando telas grandes e as decorando com as cores que a vida lhe avia presenteado. Riu ao perceber que não era tão talentosa, e isso não importava. Agora sabia que tinha outros atributos, e que seria neles que pautaria sua nova vida.

Passou a caminhar na praia todos os dias e cada dia, se descobria um pouco mais. Sentava-se sobre a areia por algum tempo e contemplava o mar. Estava profundamente grata por tudo que acontecia em sua vida. Nem imaginava que pudesse haver tanta beleza fora de seu quarto escuro, e fora de si mesma.

Por um momento, chegou a pensar tudo aquilo não havia passado de uma quimera. No entanto, a saudade doía no seu peito, e ela considerou que a dor era verdadeira. Alimentava sua vontade dele com desatinados devaneios criados em sua mente. Passava as noites pedindo que o tempo corresse depressa para poder estar com ele, e se jogava nos braços de seus desejos com a coragem dos apaixonados.

Ela estava viva. E estava feliz. 

 

Capítulo dezoito

ElePensava nela todos os dias.

Ouvia as músicas de que ela gostava e se divertia da maneira como organizava suas playlists. Via os filmes de que ela falava e, claro, lia tudo o que ela estava lendo, porque necessitava conhecê-la. Era como se uma parte da vida dela devesse ser vivida por ele. Ela era um lugar onde ele gostava, e queria, permanecer.

Por vezes, via-se experimentando coisas que nunca cogitaria antes e sentia-se satisfeito estar tão próximo da vida.

Certa tarde, chovia muito, e ele descobriu a beleza de tomar um bom banho de chuva, invadido por uma sensação de prazer e completude.

Teve certeza: ele enfrentaria o que fosse para vê-la novamente.

Tomou decisões passionais e, mesmo ciente dos riscos não conseguiu evitá-las.

Antes de sair da fazenda, avisou a todos que iria acampar com alguns amigos. Não tinha nada planejado, mas também não podia ser completamente inconsequente. Informou ao agente que estaria fora e que não queria que ninguém soubesse.

Ele precisava vê-la.

Dirigir por quase quatro horas parecia uma eternidade, não apenas pelo tempo, mas pelo espaço que havia entre eles. Contudo, ele encurtaria essa distância com sua vontade: naquele momento, nada importava mais do que estar com ela. 

 

Capítulo dezenove

Ela: Passou a manhã absorta em seus textos e nem se deu conta da passagem das horas.

A filha lhe fez companhia por uma parte da manhã e, quando a menina foi para escola, ela saiu para sua caminhada, que já havia se transformado em um bom hábito.

Uma mensagem fez o celular vibrar e, junto com ele, seu coração. Seus olhos brilharam: era ele, perguntando se ela estava bem e o que fazia. Respondeu, sorrindo, que estava ótima e caminhava pela praia, tentando debelar as saudades que tinha dele.

Um vento agradável soprou, e ela se sentou na areia. O pôr do sol parecia uma pintura, e, respirando fundo, sentiu a maresia trazer alento e coragem.

Depois de algum tempo ouvindo o som das ondas, levantou-se, e um perfume familiar fez seu coração acelerar.

Virou-se rapidamente e sentiu faltar-lhe o ar.

Quase não podia acreditar que ele estava ali, ao seu alcance. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele a abraçou com força. Ela se sentia descompensada, mas retribuiu o abraço. O mundo coube naquele abraço.

Quando se afastaram, ela não pôde conter as risadas. Perguntou incrédula:

    - O que você faz aqui?

Ele vestia um moletom com capuz e óculos escuros; poderia estar em qualquer lugar, menos ali, em uma praia.

Sem responder, ele olhou para si mesmo, riu e beijou-lhe a testa com carinho.


Capítulo vinte

EleHospedou-se em um hotel simples, usando um nome que não era seu.

Tomou um bom banho e depois de pedir algo para comer. mandou uma mensagem para ela. Queria mesmo era fazer uma serenata, mas isso atrairia a imprensa, e ele queria esse tempo só para os dois.

Olhou para os cantos do quarto como se buscasse algum apoio: precisava sair sem ser reconhecido. Quando recebeu a resposta dela, rapidamente, apanhou um casaco e saiu.

Caminhou por alguns minutos e já tinha o coração nas mãos quando a viu sentada na areia. Ele a contemplou, e adorou enquanto ela observava o mar. Aquela visão era a recompensa perfeita para ele, que tanto tinha esperado para vê-la.

Quando percebeu que ela se levantava, apressou-se em ir até ela e, antes que ele pudesse tocá-la, ela se virou. Parecia surpresa, e ele, num ímpeto incontrolável, a abraçou.

Senti-la entre seus braços foi um auge de felicidade; não se lembrava de nada que tivesse sido tão seu quanto ela. Quando se afastou por um momento e a viu sorrir, entendeu que não se importava em parecer patético só para vê-la feliz.

Certamente, o disfarce, roupas de inverno em pleno verão na praia, não era o ideal. Mas, por ela. estava disposto a tudo. Ela estava contente, e isso valia qualquer coisa.

Então, ele beijou-lhe a testa. 

 

Capítulo vinte e um

Os dois: 

    - Não posso acreditar! Você é maluco? O que faz aqui?

    - Na verdade, vim te ver para não ficar louco...

Tomou as mãos dela e ela disse:

    - Eu não sei o que dizer!

    - Então não diga nada. Só vem comigo.

    - Para onde vamos?

Saíram rapidamente, de mãos dadas, em direção ao hotel onde ele estava hospedado, e entraram no quarto como se fugissem de alguém. Mais uma vez se abraçaram e era visível, era visível o quanto estavam felizes.

Ele arrastou uma cadeira para perto, tirou o casaco e sentou na cama. Era a primeira vez que ela o via vestido tão informal e, vendo-o tão perfeito, imaginou o que a camiseta poderia esconder. Tentou afastar esses pensamentos e perguntou, sorridente:

    - Ainda acho que é um sonho! Pensei que só viesse na próxima semana.

    - Não pude esperar... precisava te ver.

Ela não conseguia disfarçar a euforia e tocou-lhe o rosto. Por um momento, olhou nos olhos dele e recuou dizendo:

    - É arriscado você vir aqui e ficar andando por aí...

    - A espera me causaria mais dano do que a exposição. Eu tinha que vir.

Ele levantou, pegou o celular e sorrindo disse:

    - Tenho uma surpresa.

Sentou-se na cama, encostando-se na cabeceira, e ela se sentou ao lado dele. Ele buscou uma música no celular e, ao ouvirem, riram como crianças. Ele contou:

    - Tomei posse das suas playlists.

Ela entendeu que era importante para ele entrar no mundo dela. Toda ternura possível invadiu seu coração. Brincando, ela comentou:

    - Não sei o que dizer, a não ser que você tem um extremo bom gosto para música...

    Ele deitou se sobre uma almofada olhou para ela e rindo alto respondeu:

    - Não só para música, acredite!

Ela se deitou do lado dele, e passaram horas assim, frente a frente, trocando sonhos, fragmentados de passado, e se compreendendo perfeitamente.

Acabaram adormecendo. Quando ela acordou, estava deitada sobre o peito dele, sentindo o braço forte que a envolvia. Foi inundada por uma segurança que até então não conhecia, e ele também despertou. Já era fim de tarde e chovia muito.

 Acomodaram-se um no outro e ouviram os sons da chuva batendo na janela. Ela se encolheu um pouco, e ele, num gesto de cavalheiro, puxou o casaco que estava próximo e a cobriu. Olhou com carinho e perguntou:

    - Pizza?

Ela sorriu e aprovou imediatamente.

A noite caiu. Ouviram música, comeram pizza, dançaram, tomaram vinho e foram felizes. A chuva não dava trégua. Ela ligou para casa avisando que estava bem, e que estava esperando que a chuva parasse para voltar em segurança.

Ele queria que o tempo parasse, que a chuva fosse eterna.

Não se beijaram e não fizeram amor, mas se amaram profundamente. Sabiam que pertenciam um ao outro e que não precisavam ter pressa. Tudo aconteceria no devido tempo.

A realidade bateu à porta, e ela precisava ir.

     - Eu levo você...  Por Deus, eu que queria que você ficasse, e sou eu que te diz te levo.

   - Quem sabe um dia a gente não precise mais se distanciar tanto um do outro, não é verdade.

Ele tomou a nos braços com força, apertando-a carinhosamente contra o peito. Respirou fundo e, fechando os olhos, sussurrou: 

    - Eu morreria por isso...

Se olharam por alguns segundos e então saíram. Ele precisava voltar rapidamente para fazenda, mas combinaram um encontro antes de ele partir. Passariam a tarde do dia seguinte juntos.

  

Capítulo vinte e dois

ElaEstava em estado de graça. Quase não acreditava em tudo que tinha acontecido. Sentia que, agora, era dona de si mesma, e que no envolvimento com ele, não havia mais retrocessos.

Foi ao quarto da filha e certificou-se de que estava tudo bem. Depois, jogou-se no sofá e percebeu que ainda estava com o casaco dele. Deitou-se ali mesmo e respirou fundo, sentindo o cheiro do homem que a havia resgatado da morte e pelo qual, agora, ela seria capaz de morrer.

Ficou um bom tempo lembrando de cada detalhe. Não teve medo de dizer em voz alta que estava apaixonada e acabou passando o resto da noite ali mesmo.

Acordou quando a filha a chamou. Cumpriu todo o ritual da manhã e, à medida em que a tarde se aproximava, sentia-se arrebatada pela ansiedade de vê-lo novamente.

A menina já tinha saído para escola quando ele chegou. Estava casualmente penteado, de óculos escuros e vestia um moletom. Assim que ela abriu a porta, ele sorriu e ergueu as duas garrafas. Dizendo:

    - Vinho!

Tirou os óculos e entrou, dando-lhe um beijo na face. Ela o olhou e, sorrindo, lembrou-se das inúmeras vezes em que ele estivera naquela mesma sala, mas sempre através da televisão.

            Ele colocou as garrafas sobre a mesa, tirou o casaco e o deixou sobre o sofá. Ela o desejou, mas desviou o olhar e foi rapidamente buscar as taças, enquanto conversavam trivialidades.

Encheram as taças e se sentaram no tapete da sala. Brindaram à vida.


Capítulo vinte e três

Ele: Acordou com a claridade do dia que entrava pela janela. Sentiu-se sozinho na cama, mas o perfume dela ainda pairava no ar. Levantou-se, tomou um banho demorado, preparou um bom café e tentou relaxar. Sentia-se completo, e o simples fato de perceber o adiantado da hora lhe deu nova energia.

Aproveitou o resto da manhã para resolver algumas pendências pelo e-mail, fazer algumas ligações e deixar tudo organizado para o retorno à fazenda, pois planejava partir no dia seguinte bem cedo.

Vestiu novamente seu disfarce de inverno e pensou em levar flores para ela, mas desistiu por um motivo sensato: seria arriscado ser reconhecido caminhando pelas ruas. Pegou, então, as duas garrafas de vinho que havia trazido e saiu.

Bateu à porta dela quase com quase a mesma foça do próprio coração e percebeu-se um tanto acelerado. Quando a porta abriu, ele não soube o que dizer. Apenas levantou as duas garrafas:

    - Vinho!

Por impulso, beijou-lhe o rosto e entrou. Colocou as garrafas sobre a mesa, tirou o casaco e o largou sobre o sofá. Viu quando ela voltou da cozinha com as taças nas mãos e a desejou. Não um desejo momentâneo, mas com algo mais profundo, uma sensação de quase pertencimento, algo que vinha dela e que o iluminava.

Sentiu-se encantado mais uma vez. Abriu uma das garrafas, serviu as taças e, ao brindar com ela, agradeceu à vida.

  

Capítulo vinte e quatro

Os dois: Beberam e celebraram a companhia um do outro. Falaram sobre suas dores e seus amores, ouviram música, conversaram sobre a situação política do país e sobre seus gostos pessoais. Também arriscaram alguns planos para o futuro. Talvez fosse efeito do vinho, mas em dado momento ela chorou e murmurou:

    - Melhor eu parar de beber...

   - Eu morro de vontade de conhecer seus pensamentos e afastar tudo que te atormenta. Queria tanto te proteger de tudo! Me sinto tão impotente quando você deixa de rir...

    - Agradeço tudo que aconteceu comigo, porque foi exatamente no meio daquela tormenta que encontrei você.

Ele abaixou os olhos por um instante:

    - Encontrou um personagem que eu interpretei... e às vezes me pergunto se eu posso conquistar você sendo eu mesmo. Sei que você vê em mim apenas uma parte do que sou.

    - Eu vejo você como você é. Eu amo tudo em você: a maneira como fala, como passa as mãos pelos cabelos, seus gestos acelerados, seus olhos profundos... e até esses disfarces absurdos com casacos de inverno em pleno verão.

Riram alto e ele e passou a mão no rosto dela:

    - Espero que tudo isso não seja resultado de duas garrafas de vinho... Porque, de verdade, de algum modo você mudou minha vida, e eu não quero ser uma dúvida para você.

Se aproximaram devagar. Ele enxugou as lágrimas que desciam pelo rosto dela. Estava tão perto que ela podia sentir sua respiração quente. Com delicadeza, passou a mão pelos cabelos dela; ela fechou os olhos, e ele tocou os lábios dela com os seus.

O tempo parou. 

Afastaram-se apenas o suficiente para respirar, e ele, num tom brincalhão, sussurrou:

    - Quanto aos casacos... geralmente me visto um pouco mais adequadamente no verão.

Ela sorriu, e então ela a beijou. De verdade. 

 

Capítulo vinte e cinco

Eu: Hipótese 

O que houve depois disso?

Não sei! Prefiro imaginar...

Mas, você também pode imaginar, todas as vezes que abrir as revistas e os vê juntos e felizes. Por mais que pareça improvável, esta é uma história de possibilidades. E, claro, é uma história de amor, de sonho e buscas.

O que realmente importa aqui é a imprevisibilidade do que pode acontecer. Eu, particularmente, acho que vale a pena viver só para saber.

Às vezes, não percebemos as coisas incríveis que podem surgir ao longo da vida... mas, enquanto se está vivo e disposto, tudo pode acontecer.

 

Fim.

7 comentários:

  1. Ansiosa para o desfecho ☺️😁👏

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  2. Que história incrível!! Amei cada detalhe. Estou sonhando com o livro 😍

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  3. Anaaaaa!!! Que belíssima história!! Parabéns pelo talento e sensibilidade! Que vc brilhe e alcance o maior número de leitores possível! Já comecei a fazer propaganda!!! Beijooos! 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽💟🥰

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