Acordou ainda presa aos restos de um sonho e demorou alguns minutos para aceitar o dia. O clima ameno a convidava a permanecer na cama. Ela cedeu. Estava cansada demais para pedir prontidão.
Ao virar-se na cama, estranhou o homem ao seu lado. Não porque fosse um desconhecido, mas porque depois de tanto tempo e abandono silencioso, já não sabia mais quem ele era, ou em quem ela mesma havia se tornado. Perguntou-se se não o amava mais,e só então entendeu que apenas apenas tinha aprendido a ficar e que talvez isso não fosse mais suficiente.
Fechou os olhos, tentando escapar daquela constatação.
A relação tinha sido esvaziada pelos dois. O que restava era uma disputa muda, onde ferir parecia a única forma de existir. As culpas, espalhadas no espaço entre eles, feriam e as palavras que poderiam salvar eram ditas em tom baixo demais para serem ouvidas. Preferiu calar-se naquela guerra sem vencer-dores.
Com o tempo, as responsabilidades não
assumidas passaram a sustentar um muro que era maior a cada dia, que se tornou intransponível.
Quando já
não conseguiam mais se enxergar, simplesmente foram embora. Não houve conversas, explicações
nem despedida. Houve silêncio. E como a voz
se dissipou, o vento tratou de apagá-la.
Como
aquilo havia acontecido? As histórias prometem um amor absoluto, as músicas
falam de eternidade, os livros tentam explicar o que nunca se deixa apreender
por completo. Meras fantasias de quem acha que o amor não precisa ser construído, nem precisa de manutenção diária e teimosa.
Não acreditava que o casamento fosse ruim. Apenas não estava preparada para ser porto seguro quando o chão em que pisava já era frágil demais. Estranhava as relações que transformavam o amor em jogo de poder, onde um vence e o outro perde. Para ela, o casamento deveria ser trabalho conjunto. Responsabilidade dividida. Talvez estivesse pronta para construir, mas não aceitava competir por algo que deveria ser seu.
Levantou-se
e entrou no banho, tentando se livrar do incômodo que sentia consigo mesma. O
que havia acontecido na noite anterior tinha mais a ver com gratidão do que com
desejo. Onde ficara o respeito por si mesma?
Saiu sem café, sem planos, sem lugar. Acabou em um hotel.
Dias depois, voltou apenas
para recolher o que restava de si naquele apartamento. Nunca mais retornou.
Seguiu
vivendo, agora com menos peso. Decidiu não carregar culpas que não lhe pertenciam.
Caiu fundo, mas aprendeu a construir suas próprias escadas. Precisou abandonar
as muletas que os amores idealizados ofereciam, mas pouco a pouco, voltou a
caminhar sozinha. Tornou-se ela mesma.
Venceu? Ainda
luta. Agora segue munida de autoestima e amor-próprio. Sabe que não deve a
ninguém mais do que a si mesma e que a felicidade não se planta para o futuro:
ela acontece no presente.
“Perder-se
também é caminho.”
Clarice
Lispector
Realmente esse tipo de decisão é sempre algo se pensar. Um grande erro é imaginar que relacionamento é sempre um grande mar de rosas, que são apenas momentos lindos e inesquecíveis. Muitos acham que estão preparados para o momentos mais difíceis, mas na verdade não sabem lidar com eles. Quando chega a hora da decisão, não sabem como agir e agem no ciclo vicioso de uma relação sem futuro. Amor próprio é uma das melhores formas para descobrir a felicidade.
ResponderExcluirMuito bom!! Somos criados a buscar no outro a cura para o que nos doi internamente.
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